15 de nov de 2016

Análise literária Contos Murilo Rubião

O fantástico e a condição do absurdo humano nos contos de Murilo Rubião


Murilo Rubião – Biografia

Murilo Eugênio Rubião
Nasceu  em  Silvestre  Ferraz,  hoje  Carmo  de  Minas  MG,  no  ano de  1916.  Formado  em  Direito,  foi   professor, jornalista,    diretor    de    jornal    e    de   estação    de    rádio (Rádio Inconfidência).  Criou o primeiro Suplemento Literário de Minas Gerais e, envolvido sempre em política, foi Oficial de Gabinete do Governador Juscelino Kubitschek. Morreu em 1991 com 33 contos produzidos, sendo três desses publicados postumamente. Nos anos de glória do romance nordestino, Rubião, que se esperava realista dado o período em que publica seu primeiro livro, revela-se na contramão dessa corrente, pois retrata a realidade por meio da fantasia, dando vazão ao Realismo Maravilhoso.
A  preferência  pela  escrita  fantástica,  em  detrimento  aos  aspectos  da geração  de  1940,  cujas narrativas se voltavam  para a discussão das questões mais sociais, levou-o  a figurar  de modo ínfimo nas tradições literárias no  Brasil.  Todavia, atualmente,  os  contos  de Rubião  constam  em  antologias  e em apresentações em congressos ao redor do país. Os contos são carregados de questões concernentes à contemporaneidade, partindo de narrativas fantásticas que apontam para o absurdo da vida contemporânea.
A obra de Murilo é critica ferrenha da postura conformista do homem diante dos angustiosos problemas da vida.

O realismo fantástico

Os contos de Murilo Rubião filiam-se a uma vertente conhecida como realismo fantástico, ou realismo mágico. Trata-se de uma corrente literária interessada em construir narrativas em que acontecimentos inexplicáveis e/ou impossíveis (do ponto de vista lógico ou científico) adentram o universo real (tal qual o conhecemos) sem terem sua existência questionada. Produz-se, assim, um efeito de estranhamento no leitor, que se defronta com cenas absurdas em situações absolutamente cotidianas.
Onirismo e Surrealismo são marcantes, já que a obra aborda situações inusitadas, dignas de uma cena de sonho, de delírio.
Já se estudaram, no contista, o zoomorfismo, o cromatismo, inúmeras aparências de metamorfose, a tensão entre o prodígio e a frustração, entre a transcendência e a contingência, e, às vezes, entre a onipotência e a mera impotência.
O próprio conto “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, um clássico de Murilo Rubião, ilustra o encontro de duas culturas: aquela em que tudo é possível e a outra, na qual nada é permitido.


A questão das epígrafes
PROFETISMO EM QUE PREDOMINA A NEGATIVIDADE

Uma característica peculiar à obra de Murilo Rubião é o uso  das epígrafes bíblicas colocadas no início de cada livro e de cada conto. Elas apontam, de maneira simbólica, a temática a ser abordada. Isso não quer dizer que os contos tenham conteúdo cristão. As epígrafes resumem de modo universal o conteúdo do conto.
O uso dessas técnicas e temas fantásticos funciona não só  como recurso para prender o leitor numa leitura prazerosa e de distração. Mais do que isso, assume uma função crítica. Isto é, o fato sobrenatural e fantástico é um recurso da imaginação para remeter-nos aos conflitos de nossa própria existência. É assim que Murilo Rubião desvenda em seus contos os grandes dramas da natureza humana.
Os personagens da narrativa muriliana apresentam uma visão de que viver neste mundo é uma experiência sem solução. Não há salvação ou final feliz nos contos de Rubião. Seus personagens são solitários e caracterizam-se por eternas buscas e contínuos desencontros. As mulheres em sua narrativa não respondem aos desejos dos amantes.

O Pirotécnico Zacarias
O narrador-protagonista (o próprio Zacarias) inicia o conto dizendo que seus amigos e pessoas de suas relações não sabem se está vivo ou morto o pirotécnico Zacarias. Todas as pessoas do local têm dúvidas se o Zacarias que passeia pela cidade é o mesmo que havia morrido em acidente. Devido a essa dúvida, o narrador-defunto decide contar como morreu.
“ A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor (...)  Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.(Rubião,2010,p.15-15)”
Neste conto, o tema da morte está presente desde a epígrafe bíblica do livro  de Jó, que concebe a morte como um renascimento, até o fim da narrativa em que o narrador, Zacarias, torna-se morto-vivo cidade.A fórmula (narrador=defunto) nos é familiar desde que Machado de Assis cria o morto-vivo mais famoso da literatura, Brás Cubas, em seu romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.
A morte e o modo como as pessoas se relacionam com ela são questões centrais da narrativa. A beleza do texto, porém, é que Murilo Rubião tem a maestria de tratar este tema, levando os leitores ao domínio do fantástico, ou seja, ao universo da dúvida diante de um fato que foge  do real; um morto pode andar pela cidade como se estivesse vivo? Nesse sentido, apesar de vagar pelas ruas, tentando provar, angustiado, que está vivo, Zacarias encara com ironia e humor a sua morte, ao dizer que ir de carro para o cemitério era sugestão que mais lhe convinha, “Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos.”(Rubião,2010,p.17). Contudo fica-lhe o rancor de que as pessoas não percebem que se pode amar indivíduos diferentes. É assim que o conto se torna uma alegoria da sociedade contemporânea do autor.


O Ex Mágico da Taberna Minhota
O narrador, que não diz seu nome, é um ex-mágico que, entediado com a profissão, torna-se funcionário público. Contudo, a nova profissão também lhe oferece como existência entediante. Aliás,sua vida fora um tédio desde a infância, nunca gostou de viver. Ele relata, em tom saudoso,as mágicas que fazia na Taberna Minhota e depois no Circo-Parque Andaluz. A vida de mágico não lhe agradava, pois seus “truques” não eram mágicas, eram naturais e não apenas ilusões. Ele relata que,sem querer,foi ao banheiro da taberna e retirou do “bolso o dono do restaurante”, e tal fato surpreende o narrador. Quem ficou perplexo foi o dono do restaurante, que lhe propôs emprego de mágico na Taberna Minhota.
Neste conto, temos um personagem-narrador que é um sujeito inapto para a vida, um sujeito que tem várias crises de identidade,pois nada do que a vida lhe oferece o satisfaz e chega a declarar:
“Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se a vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.” (Rubião,2010,p.21).
Trata-se, portanto, de um sujeito que tende para a morte do que para a vida. Neste sentido, o tema da morte surge nas várias tentativas de suicídio que o narrador empreende. Neste conto, temos portanto, um personagem instável e que não sabe suportar a existência humana que, ora é prazerosa, ora é entediante. É um sujeito próprio da pós-modernidade,que vive uma intensa crise existencial e de identidade.
A narrativa é essencialmente existencialista. Para Sartre, “a existência precede a essência”. Desta forma, o homem, primeiramente, nasce. A essência vai se formando no decorrer da existência. Entretanto, o homem, marcado pela morte, busca essa identidade absoluta, fracassando. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para concebê-la. Por isso, o homem se sente responsável: o homem ligado ao compromisso e que se dá conta de que não é apenas aquele que escolhe ser, mas de que é também um legislador pronto a escolher, ao mesmo tempo em que a si próprio, a humanidade inteira. Daí a angústia e a sensação de fracasso.

Teleco, o coelhinho
Dois fatos inusitados se colocam,de imediato, na leitura dessa narrativa:
Um coelho que fala e, além do mais, que pede um cigarro ao narrador personagem. Será que ele que ser humano? Esta pergunta que se coloca na leitura do conto. O homem dá cigarro a Teleco,o coelho,  e trava com ele uma conversa  amigável. Ao perceber que Teleco  não tem casa, e encantado com a educação do animal,o personagem humano o convida para morarem juntos.
Teleco se metamorfoseia, o tempo todo, em outros animais. Ele alega ser um sujeito instável por querer sempre agradar aos outros. O comportamento do coelho é, portanto, de alguém que vive buscando uma identidade.
Teleco encontra uma mulher sedutora e se apaixona. Para viver esse romance e afirmar-se como homem, o coelhinho assume a forma de um canguru com um comportamento humano, porém degradante. A relação entre o protagonista e o canguru torna-se tensa, levando à expulsão do animal, que passa a viver com a namorada, que explora o seu dom. Após a decepção amorosa, Teleco volta para o seu amigo, arrependido, doente e pede ajuda. Não tarda para que Teleco consiga sua última e desejada metamorfose: uma criança, ainda que sem vida.
No conto, o fantástico surge de um elemento ingênuo: um simples coelhinho de dimensão humana e dramática revela ao homem a verdade que ele não pode suportar: o homem contemporâneo é massificado, sem identidade e solitário. O cotidiano apresentado no conto é absolutamente fiel ao nosso mundo real; a partir da presença de um coelhinho, que busca a sua humanidade, temos a subversão desse real harmônico. A princípio, Teleco encontra nas metamorfoses a maneira de se aproximar do humano, afinal, ele é um ser marginalizado, um ser que ninguém reconhece como humano e que busca a todo custo sua aceitação: “Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar ao próximo” (RUBIÃO, 1998, p.144).
O querer desenfreado de Teleco constrói um muro entre a realidade que o cerca e o que ele julga como real. A sua condição de coelho é que o faz não-humano; logo, a metamorfose em canguru livra-o da forma anterior, tornando-o, conseqüentemente, humano. Barbosa é um homem (canguru) e não um coelho, por isso usa óculos e cospe no chão. A meiguice do coelhinho cede à bruta imagem, cheia de vícios, do horrendo canguru.

O HOMEM DO BONÉ CINZENTO

O narrador infantil, Roderico, conta-nos que a rua onde morava era pacata. Caminhões de mudança, despejando caixas no antigo hotel abandonado, tiram a calma da rua. Diziam que para lá se mudaria um celibatário. Todavia, um velho magro, com roupas largas e um inseparável boné cinzento, acompanhado de um cão perdigueiro se muda para lá. Não é visto na rua e, invariavelmente, senta-se todas as tardes, com um cachimbo e seu cachorro, à porta. Artur, irmão do narrador, espreita a casa vizinha, na esperança de que o velho se antecipe.
Artur argumenta insistentemente com o irmão que o velho está emagrecendo. Acorda o narrador para dizer-lhe que descobrira o nome do vizinho: Anatólio, ao que Roderico esbraveja: chamasse Nabucodonosor.
Chega uma bonita moça, desce do táxi e, sozinha, adentra a casa de Anatólio. Artur e Roderico se questionam sobre a vida do velho. Os diálogos entre o narrador e Artur indicam a obsessão de adentrarem na vida do outro e opinarem sobre o que e como deveria ser.
A incógnita aumenta: a mulher chega e o homem emagrece a cada dia. Depois, assim como chegou, a moça se foi. O narrador resolve também vigiar o vizinho, não que ele lhe interessasse, mas por causa de Artur que, por sua obsessão, tinha olheiras, definhava. Artur comenta que o homem está ficando invisível. O narrador, sugestionado pelo irmão, vê as coisas através do corpo de Anatólio. Sua magreza encanta o narrador.
Roderico afirma: “Às cinco horas da tarde do dia seguinte, o solteirão apareceu na varanda, arrastando-se com dificuldade. Nada mais tendo para emagrecer, seu crânio havia diminuído e o boné, folgado na cabeça, escorregara até os olhos. O vento fazia com que o corpo dobrasse sobre si mesmo. Teve um espasmo e lançou um jato de fogo, que varreu a rua. Artur, excitado, não perdia o lance, enquanto eu, recuava atemorizado. Artur entusiasmado, gritava: Não falei, não falei! A seguir, Artur também começa a diminuir até se reduzir a uma bolinha negra, que escorre pela mão do narrador.

O conto aborda os relacionamentos humanos na pós-modernidade: na verdade, nem os irmãos que observam obsessivamente Anatólio estavam preocupados com ele, mas apenas especulando sobre um fato inédito na rua pacata. O homem ter ficado transparente indica que não somos vistos pelos outros, que nos são indiferentes, somos, também, transparentes, assim não vemos os que nos cercam. Por outro lado, paradoxalmente, Artur se transforma em uma bolinha, coisifica-se, por deixar de viver sua própria vida para vigiar a outro.

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