27 de mar de 2016

Análise literária do conto "Negrinha", Monteiro Lobato

Sobre o autor:
José Bento de MONTEIRO LOBATO – Romancista, contista e jornalista brasileiro, nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, São Paulo, e faleceu em 4 de julho de 1948, no mesmo Estado.
Bacharel em Direito, exerceu o cargo de Promotor Público, em São Paulo.
Monteiro Lobato é um dos escritores brasileiros mais lidos e populares. Suas obras têm sido traduzidas para quase todas as línguas e continua inspirando sentimentos nacionalistas e, principalmente, a defesa do petróleo e minérios radioativos.Foi o criador da literatura infantil no país e a sua produção, nesse gênero, é vultosa e importante. Tornou-se autor de uma extensa produção na área da literatura infantil, que inclui clássicos do gênero, como O Marquês de Rabicó (1922), Reinações de Narizinho (1931), Memórias de Emília (1936), Histórias de Tia Nastácia (1937) e O Sítio do Pica-pau Amarelo (1939). Sua obra voltada para os adultos inclui diversas histórias escritas em estilo leve e gracioso e são povoadas por tipos humanos interessantes.
Sua característica principal são o regionalismo e o conteúdo crítico. Aliando a crítica de costumes à criação de personagens como o caboclo Jeca-tatu, o escritor descreve a decadência econômica e social do vale do Paraíba paulista do início do século. O Sítio do Pica-pau Amarelo foi transformado na década de 1970 em uma série infantil de TV, de muito sucesso até hoje.

Contexto histórico e literário: Pré-Modernismo
O início do século XX representou para a nação brasileira uma fase de enormes transformações, inclusive no terreno artístico. O período conhecido como Belle époque influenciou a recém-instaurada República a implantar no cenário já controverso (pós-escravidão e seus contrastes) um processo de “europeização”, na tentativa de embelezar o país, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. Tal processo trouxe a retirada das classes mais pobres para regiões periféricas das cidades, o que causou, obviamente, muita revolta popular.
Além das mudanças sociais, a visão Realista-Naturalista permanece, mas a linguagem afrouxa os laços parnasianos, aderindo a um falar mais coloquial, próximo à fala cotidiana. As vanguardas europeias começavam a ganhar público entre os artistas brasileiros. Essa miscelânea de fatores acontecendo em um breve espaço de tempo é que conhecemos como Pré-Modernismo, fase intermediária até a implantação das ideias modernistas com a Semana de Arte Moderna de 1922.
            Os escritores desse período procuravam apresentar o Brasil e seus contrastes, especialmente os regionais. No caso do autor de “Negrinha”, Monteiro Lobato, retratou os costumes interioranos do caboclo do Vale do Paraíba, sua miséria, hábitos e “causos”.
Uma breve polêmica quando da exposição de Anitta Malfatti, em 1917, deixou transparecer os ideais tradicionalistas de um Lobato que não aceitava a arte brasileira como imitadora de modelos estrangeiros. O autor cria que o Brasil basta a si mesmo, com seu povo, sua gente, seus costumes.

Análise do conto NEGRINHA: metonímia da vida escrava

Publicado em 1920, o conto demonstra como a escravidão, extinta na lei em 1888, ainda imprimia hábitos e preconceitos na sociedade do período. O início do século apresentava-se como uma etapa de grandes inovações e modernização no território brasileiro, no entanto, o preconceito racial permanecia.
Tipo de narrador: 3ª pessoa, onisciente. Uso dos discursos direto, indireto e indireto livre. A voz do narrador prevalece na obra. Apesar da 3ª pessoa, esse narrador mostra-se compadecido para com os sofrimentos da pobre menininha protagonista da narrativa.
Tendo a escravidão como tema, o conto nos apresenta uma mulatinha escura, de sete anos, órfã desde os quatro. Nascera na senzala e vivia pelos cantos da cozinha. Residia sob os “cuidados” de D. Inácia, uma senhora rica e gorda, que não possuía apego por crianças nem tinha filhos. Na verdade, a pobre menina vivia pela casa como um animal sem dono e incômodo.
Usando o tempo cronológico na maior parte das vezes, o narrador, de modo irônico e objetivo, demonstra como, em um espaço universal (não é citado o nome do local onde se passam os fatos) muitas “negrinhas”, órfãos da escravidão, permanecem sofrendo os vestígios do passado escravagista.
Negrinha é maltratada por D. Inácia. A ex-senhora de escravos, no entanto, posa de mulher caridosa, recebendo do padre da região os elogios pelas ações de amor para com o próximo.

Negrinha X D. Inácia:
Negrinha:não possuía nome, era amedrontada, subserviente, pobre, marginalizada, condicionada ao sofrimento herdado dos antepassados escravizados. Negrinha é uma metonímia daqueles que, no processo pós-escravidão, ainda sentem os resultados da condição do negro, ser desprezado e judiado. A menininha era tratada como bicho, recebia apelidos depreciativos e servia como forma de sua patroa descarregar suas tensões por meio dos diversos castigos aplicados à pequena.
D. Inácia: representa os que detêm o poder, é rica, preconceituosa, impaciente, agressiva. Diante das instituições religiosas apresenta-se como mulher virtuosa, que se compadece dos pobres e injustiçados; na vida íntima é cruel, má. Nunca pudera ter filhos; parece com tal informação do narrador que D. Inácia encarna o masculino rude e amargo, sem a doçura e feminilidade típico do sexo que dá a luz.

Fatos marcantes:
A alegria de Negrinha ao ver o cuco: o cuco do relógio, única diversão da menininha, é uma representatividade da liberdade, afinal é um animal que voa, desprendido dos terrores dos pés no chão, da vida real. Negrinha não possuía tal liberdade, nem podia nem conhecia sonhos... Além disso, o cuco marca a passagem do tempo de tristezas da menina, pois ela só se diverte quando o objeto badala as horas.
O castigo do ovo: nessa passagem, mesmo a menina tendo razão, afinal, a criada nova roubara “um pedacinho de carne que se vinha guardando para o fim”, Negrinha é castigada pela patroa: a velha senhora coloca na boca da menina um ovo quente, obrigando-a a suportar a queimadura.
§  O acontecimento retrata o silenciamento de uma classe que não tem direito de se manifestar, de reagir.
A vinda das sobrinhas loiras:a presença de uma infância tolerável e não sujeita a castigos surpreende
Negrinha. D. Inácia trata as meninas com carinho e meiguice, o que sugere que o horror da senhora não era para com as crianças de modo geral, mas sim com os negros, os quais, criança ou não, ela não suportava.
§  O acontecimento retrata a superioridade da raça branca, a aceitação do branco em detrimento do negro.
§  As meninas aparecem como anjos que amenizam os sofrimentos de Negrinha.
 A “descoberta” da boneca: às meninas loiras era dado o direito de brincar e seu objeto de deleite, a boneca, fora motivo de deslumbramento para a pobre menina negra.
§  EPIFANIA: Ao segurar a boneca, brinquedo feminino que Negrinha não conhecia, a menininha se descobre como criança, como ser humano, com sentimentos iguais aos das outras crianças.
A morte de Negrinha: a passagem das meninas loiras pela fazenda, ao dar a Negrinha a consciência de quem ela era, impede a menina de continuar vivendo em servidão e negação de identidade. A tristeza vai consumindo a pequena até que a morte lhe consome.
§  A morte surge como libertação da vida de opressão; ali, naquela casa, não havia lugar para a pobre menina.

Em toda a narrativa, o leitor não conhece a voz nem os pensamentos de Negrinha. Já D. Inácia se faz vencer através do uso da palavra, seja ao dialogar com os padres ou mesmo ao xingar a pobre órfã.
O passado histórico terrível e destruidor e a crueldade com que os negros eram tratados são encarnados na personagem Negrinha.
À protagonista de Monteiro Lobato, após descobrir-se como sujeito e não objeto, resta-lhe apenas a morte, tal como era dada a tantos negros desde o período das levas dos navios negreiros.


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