3 de nov de 2013

Encarnação, José de Alencar no PAES 2013

Análise literária ENCARNAÇÃO, José de Alencar

Sobre o autor:

Um dos principais nomes do romantismo brasileiro, José Martiniano de Alencar é considerado o fundador do romance de temática nacional. O escritor nasceu em Mecejana, no Ceará, em 1o de maio de 1829. Cursou Direito em São Paulo e em Olinda, entre 1845 e 1850. Ainda estudante, publicou os primeiros trabalhos literários. Depois de formado, estabeleceu-se no Rio de Janeiro onde atuou como advogado e jornalista. No Diário do Rio de Janeiro publicou, em capítulos (folhetins), seus primeiros romances: Cinco Minutos (1856) e A Viuvinha (1857). Tornou-se famoso com O Guarani, publicado também em 1857. Ingressou na política quatro anos depois, sendo eleito deputado-geral pelo Ceará por quatro legislaturas. Foi ministro da Justiça de 1868 a 1870, mas não conseguiu realizar o desejo de tornar-se senador. Seus romances abordaram temáticas históricas e indianistas (O Guarani, Iracema), regionalistas (O Gaúcho, O Sertanejo) e urbanas (Senhora, Lucíola). Encarnação, escrito em 1877, só foi publicado em livro postumamente. Em vida de Alencar foi divulgado em folhetins: há dúvida quanto ao jornal em que apareceu. Último romance de José de Alencar, Encarnação foi escrito aos 47 anos de idade, meses antes do falecimento do autor. É o único romance de Alencar que apresenta um teor altamente fantasmagórico, tanto que pode ser encaixado no gênero fantástico.
Escreveu também peças teatrais. Morreu no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose, em 12 de dezembro de 1877.

ENCARNAÇÃO
CARACTERÍSTICAS:


Essa última obra de Alencar, por ser uma obra romântica possui muitas características desse momento, principalmente no que diz respeito à morte, ao estranho, ao fantástico e ao duplo, temas recorrentes desse período literário. As mulheres das obras de Alencar são representações ficcionais daquelas que se destacam na sociedade do Segundo Reinado. Apesar de não fugirem à regra de figuras femininas idealizadas do Romantismo, vistas como puras, intocadas e até ingênuas, essas mulheres chegam a ocupar um lugar social e a circular num meio que normalmente caberia apenas aos homens naquele momento histórico.

O feminino em Alencar
As protagonistas dos romances alencarianos são mulheres independentes e pensantes, têm voz, o que só viria a se concretizar plenamente no século XX. Assim, Alencar faz um trabalho pioneiro ao dar relevância ao papel social feminino, mesmo que, ao final, as mulheres alencarianas se submetam ao seu verdadeiro destino social, o casamento. Esse grande passo de Alencar evidencia-se, principalmente, na concepção da mulher como um ser inteligente e capaz de ter o poder de decisão, o que lhe é geralmente negado na sociedade da época do Romantismo.

O amor
A combinação entre o amor e a morte inspira romances e poemas em todos os tempos, mas principalmente no Romantismo, época em que o homem encontra-se fraturado, e a ideia de morte lhe soa como solução para sua unificação enquanto ser cindido. Assim, morrer de amor era sublime, principalmente entre os poetas românticos, e houve alguns que, nesse clima de amor e morte, realmente morriam ainda no ápice de sua juventude.
Apesar de o amor estar intimamente ligado à morte, sobretudo na época literária romântica, ele liga-se  também à instituição do casamento, mesmo porque ele é um aspecto central em Encarnação.

O casamento
Em Encarnação, ocorrem não um, mas dois casamentos. O protagonista da história é um viúvo, Hermano, que se casa pela primeira vez com Julieta e em segundas  núpcias com Amália, bem mais jovem que ele, moradora da residência ao lado da sua. Nem Hermano nem Amália tinham intenção de contrair núpcias, ele não pensava em um segundo casamento, e ela não tinha a menor atração pelo matrimônio e nem mesmo por Hermano.

Julieta: a primeira esposa
Hermano é um rapaz bem apessoado e distinto, que frequenta os salões da época. Ele se distingue dos demais por seus modos, e também por sua invejável situação financeira.
Hermano pode escolher entre as melhores moças, as mais cobiçadas da corte, mas escolhe Julieta, que não é rica e não brilha nos salões.  Como toda mulher do Romantismo, ela é descrita como uma estátua, mas “como estátua ela era um esboço imperfeito, ainda mesmo com as correções que aplica o molde de um traje elegante, ou a feliz disposição dos enfeites” (ALENCAR, 2006b, p. 17). É filha de um coronel reformado do exército brasileiro, que serve algum tempo em Goiás e sua mãe falece ao dar-lhe à luz.
Um dia, no meio de seus triunfos, quando a sua estrela mais brilhava, correu a notícia de que Hermano estava para casar-se, o que não devia surpreender em sua idade. Foi, porém, geral a admiração quando se soube que D. Julieta, a moça por quem se apaixonara a ponto de sacrificar-lhe a liberdade, não era rica nem bonita. (ALENCAR, 2006b, p. 17).
Hermano não precisa de uma moça rica, visto que já possui uma posição financeira invejável. Mas o que atrai Hermano é a beleza do espírito de Julieta, ela não possui uma notável beleza exterior, porém deixa uma forte impressão naqueles com os quais tem contato.
O que une Hermano e Julieta é algo mais espiritual, ela mesma acredita nisso e emana espiritualidade.
Hermano acredita no casamento como união de duas almas que se completam, e mesmo após a morte de Julieta, que ocorre quando ela consegue abrigar em seu ventre o fruto desse amor transcendental, Hermano parece continuar unido a ela e sentindo sua presença no lar onde viveram juntos anos felizes.

Amália: a segunda esposa
A segunda esposa de Hermano é completamente diferente da primeira, a diferença começa já com a cor dos cabelos, pois Julieta é morena e Amália é loira. Além disso, Amália é bonita e rica, dois atributos que não são dados a Julieta. Amália tem também opiniões e sentimentos bem diferentes dos da primeira esposa de Hermano. Ela não é uma moça que sonha com o casamento, com algum partido vantajoso, e até mesmo dispensa pretendentes ou se faz de desentendida quando algum homem galante lhe diz palavras que insinuam intenção de algo mais sério em termos de relacionamento afetivo. Vive nos bailes e festas, mas não quer assumir nenhum compromisso. Amália, no começo da narrativa, não expressa opiniões de uma moça típica do Romantismo em relação ao amor e ao casamento, parecendo ser mais uma figura feminina do Realismo. Ela quer apenas viver bem sua mocidade sem se preocupar com os encargos que a vida de casada lhe acarretaria, o casamento seria o fim de tudo o que ela vivia em seu feliz dia-a-dia. Para quê se casar se possui em casa tudo o que precisa?
Amália não acreditava no amor. A paixão para ela só existia no romance.
Através da opinião de Amália em relação ao casamento, Alencar expõe e critica a realidade da época, e daí a semelhança com Senhora. No entanto, como bom romântico, apesar de ser um inovador, é também, paradoxalmente, um conservador, pois logo leva sua protagonista ao amor e, consequentemente, ao casamento. Apesar da opinião de Amália ser contaminada pela leitura de romances realistas, ainda domina nela a ideologia romântica e, por isso se apaixona por Hermano. Isso ocorre quando é enlevada pela história do Dr. Teixeira, um amigo do viúvo, que conta da adoração e fidelidade do mesmo à esposa morta. Hermano também se apaixona por Amália e os dois se casam. A moça tão realista e irônica em suas opiniões queda-se em silêncio diante do amor. Não vai mais às festas como antes, sua luz se apaga nos salões e ela passa a viver somente para o homem que ama.
A visão de casamento como negócio, assim como é representada na sociedade onde a personagem Aurélia está inserida, também é retratada em Encarnação através preocupação dos pais, especialmente do pai de Amália, pois “sabia-se do desejo que tinha o capitalista de casar a filha” (ALENCAR, 2006b, p. 54):
O casamento nessa narrativa só é consumado ao final, pois Hermano e Amália terão que superar a morte de Julieta, que ronda a casa e parece estar entre o novo casal.

A morte
A narrativa gira em torno do tema da morte. Aliás, é importante notar a ironia que consiste no fato de esta obra ter sido publicada postumamente, estando a morte, portanto, no cerne de sua publicação. No tocante à narrativa em si, os protagonistas estão ligados à morte de uma maneira ou de outra. Trata-se da história de Hermano e Amália. Na verdade, o que se forma é um sombrio triângulo amoroso, constituído por Hermano, Amália e Julieta.
A morte na obra aparece na forma da perda do ser amado (no caso, Julieta), com a qual Hermano não consegue conviver. Ele fica em estado de letargia, só conseguindo sair disso com a ajuda de um amigo de infância, o Dr. Teixeira, que o leva para uma viagem a Paris.
É após a viagem que a morte se apresenta sob o aspecto fantasmagórico, tenebroso e sombrio. Hermano agora parece ver Julieta em todos os lugares onde eles costumavam ficar juntos, especialmente na casa de São Clemente onde moravam. Ele chega ao ponto de incitar comentários de conhecidos que julgam-no demente.
Julieta e Hermano possuíam uma ligação mais espiritual que carnal.
Até mesmo a ópera através da qual Hermano se aproxima de Julieta fala de morte. É a ópera Lucia de Lammermoor, de Donizetti, inspirada no romance de Walter Scott, intitulado A noiva de Lammermoor. Ela fala da morte como algo sombrio, fantasmagórico, e até profético.
A convicção expressa por Julieta de que ela e Hermano se casariam e ficariam unidos um ao outro eternamente, deixa nele uma impressão tão forte que faz com que não consiga se livrar da presença da esposa, mesmo depois de morta. O toucador que era dela é mantido intacto, mesmo depois de ele ter-se interessado por Amália, e estarem se preparando para contrair bodas. Isso é percebido por Amália quando visita a casa onde antes Hermano vivera com Julieta, e agora viveria com ela.
Além disso, Hermano e o empregado Abreu sentem a presença de Julieta na casa e ainda acreditam que ela ali reina de forma absoluta.

A casa
Cabe aqui uma reflexão sobre o espaço da casa de Hermano, espaço esse muito significativo para a narrativa e o seu fio condutor: a morte.  No caso de Hermano, aquela casa é o espaço onde ele realiza seu ideário de felicidade conjugal ao lado de Julieta, lá vivendo um mundo de devaneios. Depois da morte de Julieta, há uma presentificação dela na casa, com especial valorização dos aposentos dela, os quais fossilizam sua memória.
A descrição do quarto intacto de Julieta, mesmo após sua morte, é importante nessa narrativa. O aposento de Julieta fica trancado, mas Amália acaba conseguindo as chaves e abrindo-o, pois, como diz Bachelard, “toda fechadura é um convite para o arrombador”. (BACHELARD, 1993, p. 94).
Amália teve grande dificuldade em se fazer aceitar por Abreu como a nova senhora daquela casa.

Amor e morte
Em parte significativa da obra, temos a impressão de que a morte não havia separado o casal Hermano e Julieta, ou seja, é lançada a ideia de vida após a morte; a presença da esposa falecida continua na vida dos que permaneciam vivos. É a visão romântica de que o amor pode ser maior que a morte.
Amália e o processo de “encarnação”
A morte de Julieta também começa a afetar Amália e a ligá-la a essa mulher de maneira estranha ou até assustadora. Ela a considerava já como uma irmã sua; evocava a sua imagem; falava-lhe, e ficava contente por saber que a falecida havia inspirado ao marido aquele amor indelével.
Logo após seu casamento com Hermano, quando já haviam decorrido quinze dias, Amália se dá conta de que a sua consumação não ocorreria (não tinham relações sexuais). Conclui que sua vida seguiria esse curso porque Hermano não consegue deixar de sentir a presença da primeira esposa perto de si, em cada momento, e em todos os lugares. Então ela procura se parecer cada vez mais com a esposa morta, não só fisicamente, mas nos modos também. Tem início o processo de “encarnação” da figura da outra. Tanto se transforma na figura de Julieta, que conquista para si a mesma atenção e o carinho antes dispensados pelo criado Abreu à menina que vira nascer. E até Hermano se confunde, já não sabendo se aquela que ali estava agora era Julieta ou Amália.
É devido a essa circunstância que a ária Lucia faz conexão com a narrativa de Alencar, pois Hermano converte-se no marido de uma morta, já que Julieta parece ter tomado o corpo e a alma de Amália.
A transformação de Amália já era tão perfeita, que enganava Hermano e até o Abreu, sobretudo quando ela disfarçava com uma renda preta os seus lindos cabelos louros, ou mesmo os tingia com algum cosmético.

Morte como salvação: o suicídio
Hermano, ao perceber o que fizera ao casar-se com Amália sem ter deixado de amar a primeira esposa, acredita ter traído Julieta e enganado a segunda esposa. Logo, ele tem a ideia de suicidar-se, ou, como ele diz, deixar-se morrer. Por isso, deixa o gás ligado para que a casa se incendeie com ele dentro. Mas o ato não é consumado, Hermano não morre, é salvo por Amália, que já suspeitava do plano sinistro do marido.
O suicídio não chega a se consumar, mas a morte aqui é vista pelo protagonista como um meio de salvação. Com seu aniquilamento, ele resolveria todos os seus problemas, se reuniria à primeira esposa, e deixaria livre a segunda sem macular-lhe a vida com um casamento desfeito. Detendo o título de viúva, ela poderia casar-se novamente e ser feliz. A felicidade seria conseguida por todos através de seu suicídio. Essa ideia da morte como salvação é tipicamente romântica. Ela era vista no Romantismo como o único meio capaz de purificar e enobrecer o ser humano.

A morte: fogo destruidor e fogo libertador
O fogo nesse episódio é meio de suicídio e que traria a morte, mas que, ao final, trouxe a vida, a possibilidade de uma vida nova ao lado de Amália e também representada pela filha do casal que frutificou depois desse incêndio e aparece quando a narrativa é retomada, cinco anos depois.
Esse romance difere notavelmente dos outros devido ao teor fantasmagórico que permeia toda sua narrativa, que não está presente em outras obras do autor. Diferentemente dos demais textos do autor, esse pode ser classificado como pertencente ao gênero fantástico que reinou na literatura do século XIX, e onde a morte é um dos temas mais recorrentes.

GENÊRO FANTÁSTICO: Encarnação e o fantasmagórico
O protagonista de Encarnação apresenta reações e ações que, no decorrer da narrativa, causam estranheza e dúvidas sobre a ocorrência de fenômenos sobrenaturais na sua vida após a morte da primeira esposa. Também a casa e toda a ambientação da história traz um aspecto sombrio. Por isso, essa obra de Alencar é orientada com base no gênero fantástico.
Para Todorov (2004, p. 166), “o fantástico se fundamenta essencialmente numa hesitação do leitor – um leitor que se identifica com a personagem principal – quanto à natureza de um acontecimento estranho”.  Ou seja, o leitor, durante o exercício da leitura hesita em aceitar ou recusar os fenômenos da narrativa como sobrenaturais ou não: fica sempre a dúvida.

Encarnação: fantástico ou estranho?
Encarnação conta a história de um viúvo, Hermano, que se casa com uma segunda mulher, Amália, sem conseguir esquecer-se da primeira, Julieta. Esse triângulo amoroso tende ao sobrenatural, pois o espectro da mulher morta parece estar por toda a casa e, consequentemente, entre o novo casal, atrapalhando-lhes a convivência feliz.
Esse romance difere muito dos outros pelo seu aspecto tenebroso, cheio de prenúncios e presságios.  Amália, por exemplo, tem seu pressentimento com relação ao casamento com Hermano, pouco antes do grande dia. E o casal realmente não é feliz nos primeiros meses de sua união, Hermano não toma Amália como sua verdadeira esposa, a relação íntima entre marido e mulher não se realiza.
Muito antes do segundo casamento, nos recuados dias em que Hermano pede Julieta em casamento, outro trecho prenuncia um futuro sinistro, que parece se concretizar. Trata-se do diálogo entre Hermano e Julieta quando ele a pede em casamento, e a jovem expressa sua opinião a respeito dessa instituição, afirmando que para ela no casamento o marido lhe pertenceria de corpo e alma eternamente.
Isso realmente acontece, visto que a presença de Julieta impregna toda a casa e domina o espírito do marido, tomando conta de seus sentimentos e interpondo-se no seu relacionamento com a segunda esposa, concretizando, assim, o “eternamente”. Amália sente a intromissão.
Há outro trecho também significativo entre Hermano e Julieta, quando falam sobre a vinda de um filho, e, logo em seguida ocorre a morte de Julieta.
Hermano mostra-se como um homem estranho, de hábitos Quando Hermano retorna de sua viagem a Paris, depois da morte de Julieta, traz consigo uns caixões. Sua esquisitice torna-se ainda maior aos olhos do leitor quando descobre que esses caixotes carregam duas figuras de cera, feitas à imagem de Julieta e eram um simulacro dela. Hermano mandou fazê-las depois de sua viagem com o amigo Teixeira até o Louvre, onde ficou embevecido com uma pintura. No toucador de Julieta estava uma estátua à mesa de charão, e outra, recostada no sofá. Ambas refletiam gestos que anteriormente fizeram parte do dia-a-dia dela. Apesar disso, Amália mesma pôde constatar, através da equiparação com o retrato de Julieta, que essas estátuas não se igualavam realmente a sua verdadeira aparência.

Outras características românticas
Encarnação também está cheia de antíteses, que é uma característica própria do Romantismo:
normalidade x doença,
espiritualidade x materialismo,
presente x passado,
morte x vida,
 bem x mal.
Amália representa a normalidade, e Hermano, a doença; Julieta, a espiritualidade, e Amália, o realidade; Amália, o presente, e Julieta, o passado. Mas essas antíteses não distanciam, e sim acabam aproximando o casal. Amália sente-se atraída por essa “doença” de Hermano, porém com a incumbência de curá-lo. Ela também é uma admiradora de Julieta, essa mulher que inspirou tanta devoção ao marido, e é grande a confluência do passado com o presente durante toda a narrativa.
A antítese morte x vida é predominante na obra, pois toda a narrativa gira em torno da morte, que acompanha a vida de Hermano e que passará a fazer parte da vida de Amália. Juntamente com a morte, está também a vida, representada por Amália, cujo papel será o de tirar seu amado do mundo dos mortos e trazê-lo novamente para o
dos vivos. É o tema do amor que salva, tão presente no Romantismo e nas obras alencarianas. Ele está ligado também ao da morte, que é recorrente na literatura fantástica.
O espectro da esposa morta, que parece rondar o protagonista de Encarnação, é característico das narrativas que exploram o insólito, o sobrenatural. Vimos, através de trechos da obra, que Hermano parece vislumbrar a primeira esposa nos momentos mais inesperados.
O tema da morte é frequente nas narrativas fantásticas, tanto quanto os fantasmas e os duplos. Notamos que Amália acredita na presença do espírito de Julieta rondando a casa e seu marido, tanto que se revolta contra isso.
O primeiro sentimento de Amália, depois da surpresa que lhe causara esse fato foi a revolta contra o império que exercia a lembrança de Julieta no ânimo do marido, e a fraqueza desse homem que se deixara subjugar àquele ponto. Essa dominação da esposa morta sobre Hermano fica clara desde o início da narrativa. Quando ele se decide a pedir a mão de Amália ao pai dela, recua diante do sentimento em relação à Julieta, que se apodera dele naquele momento. Tanto que, depois de casado, julga ter traído a primeira esposa e enganado a segunda.
Hermano esperou, com a emoção que assalta todo homem de caráter ao tomar tão grande responsabilidade. Não era a primeira vez que tinha essa emoção. Lembrou-se do momento em que pedira a mão de Julieta. O passado, que parecia morto, ressurgiu e apoderou-se dele.
O ponto culminante dessa narrativa fantástica em que a dúvida sobre a aparição fantasmagórica da primeira esposa perpassa toda a história, acontece quando Hermano põe em prática seu plano de se matar, ou melhor, de “deixar-se morrer”. Ele abre o gás e isso faz com que a casa se incendeie. Ele está no toucador que pertencera a Julieta, e a vê em visão, travando um diálogo com ela.  No início desse momento da narrativa, ficamos em dúvida se o que acontece é realmente um fato sobrenatural ou somente o delírio de um homem desnorteado por ter inalado o gás que deixou correr pelo ambiente. Depois achamos que é muito vívida a imagem e o diálogo com a esposa morta e que toda essa cena fantasmagórica realmente está acontecendo, é justamente nesse instante que a narrativa é interrompida para enfocar o incêndio causado por Hermano na casa.
Daí também a presença do fogo, que aparece na obra como um elemento purificador. É bem pertinente o tema da morte ligado ao fogo, visto que Encarnação está inserida no período de nossa literatura em que esses temas predominam.
É o fogo, visto como aquele que tudo purifica que será capaz de acabar de vez com o espaço da casa que tanto presentifica a figura de Julieta, e trazer a salvação e o reavivamento de Hermano para o amor de Amália. Amália é o amor que salva, mas o fogo tem que purificar aquele espaço para que esse amor possa florescer sobre essas cinzas.
Quando a narrativa é retomada, no capítulo seguinte, já decorreram cinco anos a partir do incêndio, e é relatada a volta de Amália e Hermano ao lar destruído e “purificado” pelo fogo. Através de um diálogo travado entre Amália e Hermano, ao contemplarem a casa destruída pelo fogo, é dada ao leitor a explicação de como tudo ocorreu.
Há algo de intensamente simbólico naquele incêndio: o meio de suicídio que Hermano imaginara para si, meio de morte, mas que se tornará possibilidade de uma nova vida. É por isso que o romance não acaba com o incêndio. Após a vitória do amor invencível, simbolizado pelo fogo, há um salto de cinco anos na narrativa, e conheceremos seu fruto: a meninazinha de quatro anos, bela como Amália, mas de olhos e cabelos castanhos como Hermano, como Julieta: é Julieta reencarnada, a filha do casal. Mas há outra possibilidade de compreensão: trata-se do amor como encarnação, primeiramente na pessoa de Julieta, depois nas pinturas e estátuas que Hermano viu e mandou confeccionar. Finalmente ele encarna esse ideário do amor em Amália, e é ela mesma que chega a essa conclusão quando encontra as imagens de cera nos aposentos de Julieta.
Assim termina a narrativa do romance, deixando a dúvida sobre a ocorrência ou não do sobrenatural, remetendo-nos à hesitação (dúvida) do leitor presente no gênero fantástico: Hermano realmente via Julieta ou era apenas alucinação? Era Julieta, filha do casal, a encarnação da primeira Julieta, esposa morta?


9 comentários:

  1. muito triste mais emocionante...

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  2. Mas será que Hermano amava realmente Julieta ou uma imagem idealizada por ele ?E Amália reconhece isso ao entrar no "santuário" criado por Hermano, e a partir daí se transforma nessa imagem e por isso ele se apaixona por ela assim como por Julieta?

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  3. Obrigado por essa análise excelente, Dani! Um Abraço!
    Olden Hugo

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  4. desejo saber se essas sao todas as caracteristicas do livro, ou se posso resumi-las para trabalho em sala para se apresentada ou ficaria incompleto , preciso de ajuda .

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  5. estou com um pouco de dificuldades , realmente achei muito bom seu trabalho , mas para apresentaçao estou com tantas duvidas , nao o que dizer , como apresentar o que falar de verdade , Dani queria muito que voce me ajudasse fui sua aluna nop curso do Biomaxino ano passado gostaria de sua ajuda iria me salvar muito obrigada

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    1. Rafa, essas são as características mais relevantes da obra. Uma leitura atenta pode trazer novas possibilidades, já que a literatura está aberta à novas interpretações o tempo todo. Porém, seu trabalho, ao unir a leitura da obra e do material que está aí, tem chances de ter muito êxito sim. Beijos e muito sucesso pra você!!!

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  6. Rafa, essas são as características mais relevantes da obra. Uma leitura atenta pode trazer novas possibilidades, já que a literatura está aberta à novas interpretações o tempo todo. Porém, seu trabalho, ao unir a leitura da obra e do material que está aí, tem chances de ter muito êxito sim. Beijos e muito sucesso pra você!!!

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