3 de nov de 2013

A SANTA INÊS: O VERSO DO APÓSTOLO DO BRASIL

PAES 2013: “A SANTA INÊS”, PE. JOSÉ DE ANCHIETA

Literatura Jesuítica
As conquistas expansionistas europeias possuíam um duplo ensejo: ao espírito capitalista-mercantil associavam certo ideal religioso e salvacionista. Por essa razão, dezenas de religiosos acompanhavam as expedições a fim de converter os gentios.
            Como consequência da Contrarreforma, chegam, em 1549, os primeiros jesuítas ao Brasil. Incumbidos de catequizar os índios e de instalar o ensino público no país, fundaram os primeiros colégios, que foram, durante muito tempo, a única atividade intelectual existente na colônia.
            Primeiros traços de literatura:
            Do ponto de vista estético, os jesuítas foram responsáveis pela melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Além da poesia de devoção, cultivaram o teatro de caráter pedagógico, inspirado em passagens bíblicas, e produziram documentos que informavam aos superiores na Europa o andamento dos trabalhos.
O instrumento mais utilizado para atingir os objetivos pretendidos pelos jesuítas (moralizar os costumes dos brancos colonos e catequizar os índios) foi o teatro. Para isso, os jesuítas chegaram a aprender a língua tupi, utilizando-a como veículo de expressão. Os índios não eram apenas espectadores das peças teatrais, mas também atores, dançarinos e cantores.
            Principais jesuítas no Brasil:
            Os principais jesuítas responsáveis pela produção literária da época foram o padre Manuel da Nóbrega, o missionário Fernão Cardim e o padre José de Anchieta.

JOSÉ DE ANCHIETA
Nascido em 1534 na ilha de Tenerife, Canárias, o padre da Companhia de Jesus veio para o Brasil em 1553 e fundou, no ano seguinte, um colégio na região da então cidade de São Paulo. Faleceu na atual cidade de Anchieta, litoral do Espírito Santo, em 1597.
Conhecido como o grande piahy ("supremo pajé branco"), Anchieta deixou como legado a primeira gramática do tupi-guarani, verdadeira cartilha para o ensino da língua dos nativos (Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil). Destacou-se também por suas poesias e autos, nos quais misturava a moral religiosa católica aos costumes dos indígenas.        Entre as peças de teatro da época, destaca-se o Auto de São Lourenço, escrita pelo padre José de Anchieta. Nela, o autor conta em três línguas (tupi, português e espanhol) o martírio de são Lourenço, que preferiu morrer queimado a renunciar a fé cristã. Anchieta intentou conciliar os valores católicos com os símbolos primitivos dos habitantes da terra e com aspectos da nova realidade americana. O sagrado europeu ligava-se aos mitos indígenas, sem que isso significasse contradição, pois as ideias que triunfavam nos espetáculos eram evidentemente as do padre. A liberdade formal das encenações saltava aos olhos: o teatro anchietano pressupunha o lúdico, o jogo coreográfico, a cor, o som.
A obra do padre Anchieta também merece destaque na poesia. Além de poemas didáticos, com finalidade catequética, também elaborou poemas que apenas revelavam sua necessidade de expressão. Os poemas mais conhecidos de José de Anchieta são: “Do Santíssimo Sacramento” e “A Santa Inês”.

A SANTA INÊS: O VERSO DO APÓSTOLO DO BRASIL

Objetivo geral:
Converter os índios e manter o catolicismo entre os colonos.
CARACTERÍSTICAS GERAIS:
Poesia como recurso didático;
Incentivo à prática da fé religiosa;
Linguagem simples visando maior alcance religioso;
A temática do poema revela o confronto entre o bem e o mal: a chegada da Santa espanta o mal e revigora a fé do povo.
Características de anunciação da fé religiosa que prenuncia características barrocas: o uso da antítese “pecado X perdão” é um exemplo. Aceitar o exemplo a Santa é sair da escuridão e entrar na luz.
Nota explicativa: Inês: mártir da Igreja do século IV. Jovem romana, foi decapitada por ter se recusado a perder a virgindade. É considerado o símbolo e a guardiã da castidade cristã.
José de Anchieta foi um jesuíta que na sua fé buscava a salvação na Santa Eucarística. O jesuíta, em servos, explorava a musicalidade com o objetivo de facilitar a memorização. A linguagem utilizada por ele é simples, sendo esta a sua principal preocupação, tendo com isso, o objetivo de mostrar uma ideia medieval, centrada no catolicismo.
A estrutura do poema:
Dividido em três partes, sendo que a primeira parte é composta por nove versos e quatro estrofes; a segunda é composta por dez versos e quatro estrofes e a última parte tem cinco versos e quatro e cinco estrofes.
No poema o autor utiliza "rimas cruzadas" que são aquelas que se alternam num quarteto de modo que o primeiro verso rima, com o terceiro, e o segundo rima com o quarto.
Na terceira parte utiliza rimas enlaçadas, ou seja, o primeiro verso rima com o quarto e o segundo e terceiro versos rimam em parelha.
Linguagem e recursos:
Pe. José de Anchieta exalta a santa por meios de adjetivos, metáforas e substantivos. Quando o autor se refere à santa como "padeirinha", "pão", "massa", "trigo", "doce bolo", "trigo sem farelo", o autor que dizer que assim como o alimento é essencial à vida, e precisa-se dele para viver, a Santa Inês é como se fosse o alimento para a alma e o homem precisa dela.
Também, utilizando a metáfora, ele se refere à santa como "mesinha", ou seja, remetendo a ideia de que a santa é o remédio que vai curar o povo.
No imagístico, o autor chama a santa de "rainha", o que intensifica a ideia de santidade da devota católica.
A Santa Inês, também é chamada de "cordeirinha", ou seja, ela é obediente, serva de Deus. Virgem, sem mácula, e sem nenhum farelo, ou seja, pura. O uso do diminutivo explora o tratamento afetuoso.
Pe. José de Anchieta também menciona o povo em seu poema, fazendo acusações sobre eles, de não andarem famintos pelo trigo novo, (Santa Inês), chamando povo de tolo e clama ajuda da santa para vir como remédio sarar, curar o povo. Acusa ainda o homem de não ter miolo: o “miolo” refere-se à essência, afinal, sem as referências católicas o homem não é nada; é néscio, pois, é um pecador e não tem fome do "pão novo".

Segue o texto:


I - Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
vossa santa vinda
o diabo espanta.
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,

porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pela fé cortada,
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
ajudar o povo,

pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinha,
de Iesu formoso,
mas o vosso esposo
já vos fez rainha.
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo. 
II - Não é d’Alentejo
este vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.
Morro porque vejo
que este nosso povo
não anda faminto
deste trigo novo.
Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.
Ela é mezinha
com que sara o povo,
que, com vossa vinda,
terá trigo novo.
O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus amastes.
Deste vos fartastes,
deste dais ao povo,
porque deixe o velho
pelo trigo novo.
Não se vende em praça
este pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.
Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!
Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem ele passa
é mui grande tolo,
Homem sem miolo,
qualquer deste povo,
que não é faminto
deste pão tão novo!
 III - CANTAM:
Entrai ad altare Dei
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna esposa
de Iesu, que é sumo rei.
Debaixo do sacramento,
em forma de pão de trigo,
vos espera, como amigo,
com grande contentamento.
Ali tendes vosso assento.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna esposa
de Iesu, que é sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
Pois ele, com sua cruz,
vos coube dentro no peito,
ó virgem de grão respeito.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna esposa
de Iesu, que é sumo rei.



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