7 de mar de 2013

Gêneros Literários

Seguindo a série de postagens "1º ano do Ensino Médio", falemos agora dos Gêneros Literários:



Gênero é a denominação que damos ao conjunto de obras que possuem características semelhantes de forma e conteúdo. Em sala falamos sobre a definição clássica, cunhada pelo filósofo grego Aristóteles, a qual pressupõe três gêneros:

O Épico: são aquelas narrativas que contam os feitos extraordinários de um herói. Segundo Aristóteles, é a palavra contada, ou seja, é o bom e velho "contar histórias". Nas composições desse gênero há a presença de um narrador, que conta uma história em versos, em um longo poema que ressalta a figura de um herói, um povo ou uma nação. Geralmente envolvem aventuras, guerras, viagens e façanhas heroicas e apresentam um tom de exaltação, isto é, de valorização de heróis e feitos grandiosos. Os poemas épicos chamam-se epopeias. As principais epopeias da cultura ocidental são a Ilíada e a Odisséia, de Homero, a Eneida, de Virgilio, Os lusíadas, de Luis de Camões.
Veja o trailler do filme "300", o qual conta os feitos do espartanos em busca de, heroicamente, defender seu povo, sua terra:







É importante guardar na memória que esse gênero evoluiu, adquiriu outras formas. Hoje temos uma vertente do gênero épico que ocorre na prosa, o GÊNERO NARRATIVO. Assim, os romances, contos,  novelas e crônicas são parentes dos textos épicos, pois também se prestam a narrar uma história ficcional. Uma diferença importante reside no fato de o herói dessas novas narrativas serem pessoas comuns, e não mais seres predestinados por deuses para salvar o seu povo. Modernamente, o herói é uma pessoal "normal", o que o define como personagem destaque é a força de seu caráter.


Já que tocamos na questão do herói, vale relembrar a música trabalhada em sala, em uma das nossas primeiras aulas:


Observe que, como diz a canção: 

"Hoje o herói aguenta o peso
Das compras do mês
No telhado, ajeitando
A antena da tevê
Acordado a noite inteira
Pra ninar bebê.."

Ele é então um homem comum, o qual tem que se equilibrar e "lutar" contra o dia a dia cansativo e cheio de adversidades que a vida moderna impõe. Não é mais o ser enviado dos deuses, como na Antiguidade Clássica; não representa um povo, à semelhança de "Os Lusíadas", de Camões, falando da trajetória heroica do povo português ao se lançar às grandes navegações. Simplesmente, o herói é humano e individual e batalha pela sua própria sobrevivência.

O Lírico: gênero ligado à expressão do mundo interior, ou seja, fala de sentimentos, emoções e estados de espírito (não é só amor não, hein!). A palavra cantada, conforme a definição aristotélica, isso porque a poesia, na Grécia antiga, era cantada com o acompanhamento de uma lira, instrumento musical de cordas. Nesse tipo de texto predominam pronomes e verbos em primeira pessoa e há a exploração da musicalidade das palavras (uso dos versos, rimas, aliterações, assonâncias...).




Veja aí o texto da Florbela Espanca (Fanatismo - poema gravado pelo cantor Raimundo Fagner!):

Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."



Nos  dois primeiros quartetos, o eu lírico (uma mulher) revela a força do amor que sente: seus olhos enxergam apenas o amado (por isso "andam cegos"), que se transformou na sua própria vida, o sentimento que toma conta de seu ser.
No dois últimos tercetos, ao ouvir a opinião de outras pessoas sobre a transitoriedade do amor ("tudo no mundo é frágil, tudo passa"), o eu lírico responde que o ser amado passou a ser seu "princípio" e seu "fim".
Após a análise do poema, de observar essa dedicação cega, absoluta fica fácil entender porque seu título é Fanatismo, não é mesmo?!!!




O Dramático: são os personagens "em ação". É o texto sendo dramatizado, encenado. O gênero dramático expõe o conflito dos homens e seu mundo, as manifestações da miséria humana. Os atores fazem o papel das personagens. Exemplo claro é o teatro que conhecemos hoje, o qual possui o seu germe na Antiguidade Clássica.

Leia, a seguir, o diálogo de Édipo e Jocasta (na cena anterior, Creonte, irmão de Jocasta, a partir da fala de um adivinho, acusa Édipo de ter matado Laio):

Jocasta - Mas, pelos deuses, Édipo, dize-me: por que razão te levaste a tão forte cólera?
Édipo - Vou dizer-te, minha mulher, porque te venero mais do que a todos os tebanos! Foi por causa de Creonte, e da trama que urdiu contra mim.
Jocasta – Explica-me bem o que houve, para que eu veja se tuas palavras me convencem.
Édipo – Ele resume que tenha sido eu o matador de Laio!
Teatro Grego. São Paulo: Cultrix,1964.



Mas, enfim, o que torna um texto literário?

A linguagem e o uso que se faz dela são as chaves: em um texto literário temos uma dimensão estética (busca da beleza), plurissignificativa, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. No texto não-literário, a preocupação é com a  informação mais objetiva, real, científica, dicionarizada.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: 
No caso do gêneros, é importante ficar atento que, modernamente, essas classificações se misturaram e quase que não podemos mais falar em gênero puro. A música do Jorge Vercillo é uma amostra interessante: temos a trajetória de um herói moderno, a descrição da caminhada dele, até que o mesmo encontre a mulher por quem se apaixona e tudo isso contado em um texto poético, musical. Percebeu? Temos épico, narrativo e lírico em uma única produção.

É isso aí, espero ter ajudado!

Até mais, galera!

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