3 de mar de 2013

Entrevista Profª Daniele Ribeiro



A entrevista a seguir foi concedida a uma acadêmica para um trabalho de Pedagogia. Achei interessante deixá-la publicada aqui; talvez seja útil de algum modo, seja para outros acadêmicos que tentam traçar o perfil profissional do professor de Literatura ou, quem sabe, para outros colegas que queiram "conversar" sobre o ofício, suas dores e delícias. 

Entrevistada: Daniele Soares Ribeiro
Leciona Literatura Infanto-juvenil em turmas de Ensino Fundamental II e Literatura Brasileira para alunos de Ensino Médio. Atualmente, faz parte do corpo docente Colégio Delta, instituição de ensino privado, em Montes Claros, norte de Minas Gerais.

1. Como você realiza o seu trabalho em sala de aula?

Todo o meu trabalho se baseia na análise e interpretação das obras literárias em diálogo com outras formas de artes: música, cinema, teatro, pintura... Busco ler o livro para e com os meus alunos sempre de modo emocionante e cativante, a fim de transportar o leitor para o universo de sentimentos e emoções que julgo que a leitura almeja despertar. Assim, após realizar leituras dramatizadas, dialogo com o alunado sobre as compreensões possíveis daquele texto para o momento de produção do mesmo e que valores veicula para nós, leitores, hoje. Após esse momento,  introduzo canções, filmes ou outras mídias que ajudem a demonstrar que o literário é apenas uma dentre várias outras formas de o homem traduzir/entender/explicar a si e ao mundo em que vive. Fecho os trabalhos sempre com atividade escritas de interpretação e avaliações sobre o conteúdo ministrado.

2. Seu método de trabalho se aproxima mais do tradicional ou histórico-crítico?

Acredito que minha forma de trabalhar seja mais próxima da abordagem histórico-crítica, pois busco ajudar o aluno a ter autonomia no processo de construção e percepção de significados, visando a formação do sujeito crítico, capaz de analisar a realidade em que vive e criar suas próprias conclusões sobre ela, tudo isso, no caso, mediado pelo texto literário. O que se torna relevante para mim não é a abordagem conteudista, mas sim como os discentes absorvem e transformam a informação presente nas obras em conhecimento, o que só se dá quando alunos pensam e sentem os textos. Guardo ainda do tradicional as avaliações e a “nota” como indicadores de bom rendimento, o que é mais uma questão de cultura escolar do que de escolha profissional.

3. Em sua opinião, qual a função da escola?


É difícil definir uma única função para a escola, mas, por mais subjetiva que pareça, acredito e defendo que a escola deve preparar o aluno para a vida. Como se faz isso? Acho que não há respostas prontas porque a condição humana que temos nos faz diferentes e com necessidades também diferentes. Então, se atribuo à escola a função de aprovar alunos em processos seletivos, excluo os muitos que são bem sucedidos sem terem passado pelos bancos de universidades ou cadeiras de concursos públicos. Caso resolva afirmar que escola de verdade é aquela que disciplina o cidadão, cometo a triste falha de ignorar os movimentos sociais que nos libertaram das muitas ditaduras e históricas opressões porque os “rebeldes” se negaram à tão bem-vista “disciplina”. Ensaio dizer, sem medo de ser utópica, que a função da escola é ensinar o aluno a respeitar o próximo, a defender o direito de ser ouvido e também de não abrir mão do momento da fala do outro, a opinar e questionar sempre que algo lhe parecer nebuloso, de ter disciplina, mas ter sabedoria para administrá-la. Hoje, mais que antes, humanizar a sociedade pode ser uma das mais importantes funções da escola. Mas vale lembrar que a escola precisa da ajuda soberana da família, afinal, sociedade miniaturizada ainda e sempre será o ambiente familiar. Se ele é caótico, as muitas miniaturas se tornarão um monstro forte dentro do espaço escolar que fará ruir os sublimes propósitos nos quais as instituições de ensino tanto acreditam e por que lutam.

4. Você acha que as mudanças culturais e econômicas existentes na sociedade atual modificaram o papel da escola?
Sim, com certeza. As configurações da sociedade marcada pelo consumismo e pelo individualismo trouxeram para a escola a mentalidade competitiva que o mercado tanto busca. Assim, as escolas se tornaram empresas que fabricam mão-de-obra capaz de produzir, capacidade essa aferida por cifras monetárias. Aquela que deveria ser a primeira preocupação da escola (o ensino e a aprendizagem) se tornou uma finalidade prática e comercializável necessariamente comprovada pelas listas de aprovados em vestibulares. Não se pode esquecer da influência dos meios de comunicação e tecnológicos que tiraram também da escola o lugar soberano de “central do saber” e popularizaram a informação. Assim, sendo possível se informar em qualquer espaço real ou virtual, talvez caiba à escola apenas a função de fonte direcionadora, a possibilidade dada de transformar informação em conhecimento, mas hoje é o aluno, o sujeito particular, que constrói, criticamente, seu caminho de intelecção.

5. Essas mudanças trouxeram impactos positivos e negativos na forma de realização do seu trabalho?
Sim, impacto positivo é ter alunos com acesso largo à informação, donos de fronteiras intelectuais menos estreitas. As aulas podem ser mais interessantes com o auxílio de recursos da informática, do cinema... Mas é negativo perceber que nossos meninos e meninas estão sendo movidos, ainda tão novos, para as garras do capitalismo que exagera na competitividade e na cultura do sucesso individual, pois escola é lugar de partilha, justamente a contramão do sistema. Isso sem dizer que a era tecnológica tem produzido uma geração inquieta, de pensamento acelerado, mas pouco raciocínio, sem paciência para a leitura, com déficit de atenção e pouca e interação nas relações interpessoais reais, tradicionalmente mediadas pela escola. 



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