19 de set de 2012

Desmundo, Ana Miranda



DESMUNDO, Ana Miranda


Sobre a autora:
Nascida em Fortaleza, em agosto de 1951, Ana Miranda viveu grande parte de sua vida fora do Ceará. Aos cinco anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro e em 1959 foi para Brasília. Chegou a estudar Artes no Rio de Janeiro. A autora, como se vê, cresceu nas cidades que mais intensamente viveram os efeitos das radicais transformações e da efervescência na vida política, social e, sobretudo, cultural do país. Nesse período, podemos destacar a bossa nova, a contracultura hippie, os festivais de música que deram origem ao Tropicalismo, principal movimento cultural da época, isso tudo em meio a ditadura militar que exercia forte repressão. Enfim, Ana Miranda é de uma geração que não consegue, e nem tenta, ignorar a história. É essa história que figura em sua obra como principal cerne, adornado pela sua ficção internacionalmente reconhecida. Ana Miranda publicou vários livros entre poesias, romances, crônicas e contos. Estreou com o livro de poesia Anjos e Demônios, em 1978, mas foi seu primeiro romance, Boca do Inferno, publicado em 1989, que rendeu a escritora o reconhecimento nacional e internacional, prova disso está no grande número de traduções do livro. A obra foi publicada na França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos, Argentina, Noruega, Espanha, Suécia, Dinamarca, Holanda e Alemanha. Já nesse primeiro romance, notamos a propensão de Ana Miranda ao romance histórico, fazendo dessa obra uma recriação histórico-literária do Brasil colonial, trazendo personagens como o poeta Gregório de Matos e o jesuíta Antônio Vieira. Por esse livro a autora recebeu o prêmio Jabuti, em 1990. A recriação aparece também no livro publicado em 1996, Desmundo. Dessa vez, a recriação é feita na linguagem do século XVI, contando a história de órfãs mandadas de Portugal ao Brasil para se casar com os colonos. O romance histórico mistura história e ficção, reconstruindo ficticiamente acontecimentos, costumes e personagens. Nessa mistura que se edifica Desmundo mesclam-se fatos identificados na história do Brasil com o viço ficcional edificado pela perspicaz escritora.

Enredo
Em 1570,  Oribela, uma órfã, jovem sensível e religiosa, é mandada de Portugal, junto com sete outras, a mando da Rainha para se casarem com colonos no Brasil. No caminho, os relatos sobre a viagem e os medos gerados por ela dão o tom da narrativa.
Outra personagem, mandada para o Brasil também é uma viúva, a Velha, que, devido a sua experiência de vida, acaba por se tornar uma espécie de conselheira das mulheres que foram mandadas para o degredo. Logo que chegam ao Brasil, hospedam-se em uma pensão, enquanto os casamentos são arranjados. Oribela casa-se com Francisco de Albuquerque, rico colono, proprietário de terras e escravos, mesmo que ela só reconhecesse nele o que há de mais repugnante no mundo (seu cheiro, seu aspecto físico, seu passado de viajante...). Ainda virgem, é forçada a manter relações sexuais com Francisco na noite de núpcias. Após isso, ele a deixa livre para que, quando ela tivesse vontade de se entregar para ele, que o viesse procurar, pois ele não mais a forçaria. Oribela arquiteta planos para a fuga, buscando encontrar uma forma de retornar para Portugal. Descobre um meio: entrar clandestina (fantasiada de homem) em uma nau. Para tanto, precisava arranjar dinheiro para subornar as pessoas que lhe deixariam embarcar. Durante meses (enquanto se esperava a chegada da nau), junta dinheiro. Mas, ao fugir de casa e dirigir-se para embarcar, é enganada e quem deveria ajudá-la rouba seu dinheiro e a estupra. Durante o estupro, seu marido, Francisco, aparece, mata os estupradores e leva Oribela novamente para casa, onde a prende com uma corrente nos pés. Ao sair para suas expedições de caça de índios,
Oribela é obrigada a viver o cotidiano da casa, durante o qual torna-se cada vez mais íntima de Temericô, uma índia que trabalhava na casa, a quem ensina um pouco do português e de quem aprende a língua indígena, além de receber diversos costumes.
Durante uma das expedições, Francisco de Albuquerque a leva junto. É quando vê uma certa grandeza em seu marido, ao guerrear com os indígenas, mas esse reconhecimento do valor do marido não é suficiente para gerar nela amor. Ao retornarem, com milhares de índios cativos (que em parte seriam vendidos como escravos, em parte seriam aproveitados nas terras do marido), Oribela sente pena deles. As terras de Francisco de Albuquerque são atacadas pouco tempo depois e é quando Oribela aproveita a confusão para fugir novamente. Torna a esperar por uma nau que a pudesse levar para Portugal, mas desta vez esconde-se na casa de Ximeno Dias, um mouro. Apesar dele se mostrar gentil, educado, instruído, de possuir livros (que Oribela não vê sentido), os preconceitos dela sobre os mouros estão sempre a fazendo desconfiar dele. A sua cor (vermelho), o seu corpo sem pelos, ao mesmo tempo que a atraem, fazem com que ela reconheça nele a possibilidade dele ser o diabo, mas por fim acaba por entregar-se a ele. Logo da chegada de uma nova nau, meses depois de sua fuga, é descoberta pelo marido que vagava pela cidade a buscá-la. Está grávida. É levada para casa, onde tem o bebê. Pouco tempo depois do nascimento, Francisco de Albuquerque pega o filho e parte com ele para Portugal.
Oribela, não desejando nada daquele homem, queima a casa onde moravam com tudo que nela houvesse. Parte, então, sozinha, para enfrentar a vida na colônia, um lugar que não gostaria de estar, lembrando de Portugal, mas sentindo ódio de toda essa situação.


Análise da obra: Entre ficção e história: Desmundo, de Ana Miranda


 
As epígrafes
O romance de Ana Miranda, Desmundo, traz, juntamente com a narração da história de sofrimento de Oribela, personagem principal e narradora da história, um fundo histórico que não é usado somente como ambientação. A presença da história na narrativa tem uma função estruturante.
A partir de uma carta do Padre Manuel da Nóbrega ao então rei de Portugal, El-Rei D. João, pedindo que o rei mandasse para a colônia do Brasil algumas órfãs, no intuito de que, chegando às terras americanas elas pudessem casar com os colonos e, desta forma, se colocasse uma maior moralidade nos costumes correntes nas partes coloniais do império. Os colonos que para o Brasil foram estavam vivendo em luxúria com as índias que encontravam e com elas viviam em concubinato e libertinagem.
Tendo como mote inspirador essa carta de Nóbrega, Ana Miranda produz o seu romance sobre a vinda (possível) de mulheres para uma região do Brasil, destinadas a casar com os colonos mais importantes. De um lado, o que se vê é a ideia moralizadora que procurava refrear a libertinagem em que esses colonos viviam. De outro, o interesse dos colonos de se casarem com as órfãs que vêm da Europa, não somente pelo seu sentido moralizador, mas pelo endeusamento da pele branca, gerando prestígio social e satisfazendo o desejo de “branqueamento”.
No primeiro aspecto, o moralizador, encontramos a sua fundamentação no discurso histórico, tendo por base a carta de Manuel da Nobreza, inclusive um trecho dela transcrita como uma das epígrafes do romance.

A’ El-Rei D. João (1552) JESUS
Já que escrevi a Vossa Alteza a falta que nesta terra ha de mulheres, com quem os homens       casem e vivam em serviço de Nosso Senhor, apartados dos peccados, em que agora vivem, mande Vossa Alteza muitas orphãs, e si não houver muitas, venham de mistura dellas e quaesquer, porque são tão desejadas as mulheres brancas cá, que quaesquer farão cá muito bem à terra, e ellas se ganharão, e os homens de cá apartar-se-hão do peccado. (MIRANDA, s/p.)

O texto de Manuel da Nóbrega, ao seu final, reproduz a assinatura de Manuel da Nóbrega, o que acrescenta aspectos de veracidade sobre a sua existência.
Do outro lado, o dos prazeres e desejos, encontramos a sua fundamentação sobre o discurso ficcional. A outra epígrafe é assinada por Fernando Pessoa.

Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata, Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, Levado, como a poeira, pelos ventos, pelos vendavais! (MIRANDA, s/p.)

Ambas as epígrafes, em páginas não numeradas do livro, possuem o seu valor, ao apontar, cada uma para uma lado, a respeito de como está construído o romance. A primeira epígrafe colocada com a indicação de Fernando Pessoa é escrito pelo seu heterônimo Álvaro de Campos, e é um trecho de Ode Marítima. É possível que a indicação “Fernando Pessoa” venha para dar tom central da narrativa: a ficção. E por isso aparece primeiro.
A Ode Marítima usa como material a questão das navegações, as belezas imaginárias sobre elas, os portos possíveis, assim como também a dor, a solidão, a crueldade das viagens. Esse trecho, retirado de seu contexto aponta para uma viagem para o desconhecido, para onde nem a imaginação havia sido capaz de viajar, onde tudo ainda é noite e escuridão, mas para onde não há outro remédio senão ir, com a poeira jogada aos ventos.
A epígrafe seguinte (de Manuel da Nóbrega), separada de uma página da anterior, aponta para a fundamentação dessa ficção. Ela está construída sobre alicerces históricos. A distância não é mais qualquer distância, é o Brasil. Mas isso só se sabe se o nome de Nóbrega for um referencial existente no repertório do leitor, pois nesta epígrafe não se diz nenhuma vez que a região falada é o Brasil. Entretanto, as ligações com a primeira epígrafe são grandes.  O Longe, o Fora passam a se tornar mais palpáveis. Fala-se de uma região que está subordinada a um rei (El-Rei D. João). Essa terra distante vive em uma atmosfera de pecado e necessitando encontrar seu caminho para a salvação e para “Nosso Senhor”. A oposição entre as noites fundas e misteriosas apontadas na primeira epígrafe e a possibilidade de salvação pela pele branca das mulheres aponta um caminho: vai-se para um mundo de sombras e lá espera-se pelo que o redima.
Esse processo de incorporar o discurso histórico se dá no decorrer de todo o romance. A cada momento do romance, as personagens incorporam em seus discursos fatos da historia do Brasil.
A estratégia de trabalho com esse discurso formador do país é reduzir a realidade colonial brasileira dos séculos XVI e XVII a um pequeno povoado, no qual encontra-se toda uma diversidade de habitantes, cada qual representando uma certa categoria social ou cultural dentro do Império Português, em particular na formação de sua porção americana. Desta forma, encontram-se a figura de aventureiros, degredados, religiosos, mouros, judeus, índios e outros estrangeiros que dirigiram-se para o Brasil, entrando, desta forma, na diversidade étnica e cultural que caracterizava o território português do período das navegações.
A condição feminina
O fragmento textual a seguir, pertencente à terceira parte do romance, intitulada Casamento, revela aspectos interessantes que podem ser analisados. Este fragmento desdobra-se em duas vozes diferentes: a da Velha que orienta as jovens próximas do casamento e a de Oribela a questionar sobre tantas imposições. Oribela parece, em determinado momento, encurtar as orientações da Velha, quando, após tantas regras, surge a frase: “Nem pá pá pá nem lari lará”. As interdições impostas pela Velha revelam  um momento em que a autora recorre às informações extraídas de textos referentes à história das mentalidades para construir seu texto. É significativo observar, por exemplo, a reiteração da conjunção coordenativa aditiva “nem” e do advérbio de negação “não”, para revelar a quantidade de interdições a que uma mulher casada seria submetida.

Ora ouvi, filhas minhas. Aquela que chamar de vadio seu homem deve jurar que o disse em um acesso de cólera, nunca mais deixar os cabelos soltos, mas atados, seja em turbante, seja trançado, não morder o beiço, que é sinal de cólera, nem fungar com força, que é desconfiança, nem afilar o nariz, que é desdém e nem encher as bochechas de vento como a si dando realeza, nem alevantar os ombros em indiferença e nem olhar para o céu que é recordação, nem punho cerrado, que é ameaça. Tampouco a mão torcer, que é despeito. Nem pá pá pá pá nem lari lará. Nem lengalengas nem conversas com vizinho, seja ele quem for, ou cigano, nem jogos nem danças de rua, nem olhar cão preto que pode ser chifrudo, deus te chame lá que ninguém te chama cá, temperar legume com sal, não apagar luz que alumia morto nem deitar as águas fora que é de judaísmo, não pedir favores nem pôr os olhos no vizinho nem o corpo na cama de outro, tem o esposo direito de acusar, para provar inocência a esposa deve lavrar a mão num ferro de arado em brasa. Açoite e língua furada àquela que arrenegar. Os esposos devem dar panos às mulheres, mas só nas festas reais, se lhes oferecer o mercador um bom preço, que eles não façam obra alguma desde o posto do sol até o sol saído e dia de domingo e a viver segundo o capricho dos homens. Aqui do rei. E disse eu, Ora, hei, hei, não é melhor morrer a ferro que viver com tantas cautelas? Ai, como sou, olhasse a minha imperfeição, olhasse meu lugar, sem eira nem beira nem folha de figueira”.

Outro aspecto bastante significativo, quanto ao fragmento textual, é a referência à normatização do corpo representada, no texto, pelo fato de as interdições estarem ligadas a partes do corpo, em seqüência: cabelos, beiço, nariz, bochechas, ombros, olhos, punhos, mãos, língua e, por fim, novamente, o corpo todo. Nada pertenceria totalmente à mulher: nem sua alma, nem seu corpo.
À mulher cabia  lugar de serva de Deus, representante da linhagem de Maria. O papel da santa mãezinha estava associado o perfil inspirado na devoção europeia à Virgem, e o modelo de feminilidade correspondia à castidade, ao sacrifício e à sociedade. Era necessária a purificação da mulher, desde as origens um agente de Satã, e esta purificação, de forma mais urgente, era necessário numa terra como a nossa, onde reinava o Diabo. À mulher sem qualidade, aquela da rua, corresponde o avesso da santa mãezinha, e, por não enquadrar-se no papel a ela destinado, era demonizada e excluída. O uso que fazia da sexualidade era considerado ameaçador, por colocar em perigo o projeto da Igreja e do Estado, segundo o qual o corpo feminino deveria estar a serviço da sociedade patriarcal e do projeto de colonização.
Oribela durante o romance demarcará esta diferença e parece se perguntar: até que ponto sou uma “santa mãezinha” e até que ponto sou uma “mulher sem qualidade”? Que papel agradaria a ela, de verdade, assumir?
Ao colocar o foco narrativo sobre a voz de uma mulher, o romance subverte a história, dando capacidade de fala a grupos marginalizados do passado.
A linguagem
Há fortes semelhanças entre a linguagem de Guimarães Rosa, escrito modernista, e a linguagem utilizada por Ana Miranda para construir o discurso de Oribela.
Em ambos, o instrumento linguístico disponível é insuficiente para demonstrar a grandiosidade dos universos apresentados. Em Desmundo, especificamente, do mundo – desmundo que a Oribela se apresenta. Há, então, a fuga à linguagem bem comportada e lexicalizada. Para a criação desta linguagem, comparece uma série de recursos. A começar pelo título do romance, uma palavra não-dicionarizada, Desmundo, uma vez que parece faltar o termo exato para expressar o significado da nova terra para Oribela, que vê seu destino como “desrumo”, outro termo inexistente na língua oficial. Vale lembrar, ainda, que, ao se referir à nova terra, a personagem narradora utiliza palavras, dicionarizadas ou não, que são iniciadas pelo prefixo de negação “des”, como se, vê em: “despejado lugar”, “terras desabafadas”, “desventura”, além dos já citados “desrumo” e “desmundo”. Ou seja, através do trabalho com a linguagem, é possível revelar o caráter de purgação que caracterizava a nova terra. Além dos termos não-dicionarizados já citados, outros comparecem para construir o discurso da personagem Oribela, conferindo à linguagem um matiz arcaico e, ao mesmo tempo, popular.
Doçura é expressão corriqueira, e o sentimento, quando se quer dizê-lo inusitado, é num percurso de reencontro com raízes que se vai buscá-lo, retornando ao étimo latino dulce>doce. Da mesma forma, “bonamore”, forma composta, aglutinando os radicais latinos bonus>bom e amoris>amor, o bom amor, imune às contradições, o amor sonhado tranqüilo: Benditas as desposadas e casadas; para o meu varão me guardei perfeita, ru, ru, chegasse com o pé direito, trouxesse Deus o bonamore, que não tenho nenhuma burrinha, tirasse de mim os desejos, os temores, os fingimentos, as visões (...) (p. 30). É uma voz ambígua esta de Oribela que, no “bonamore”, situa o sonho na realidade da obrigação de guardar-se para o esposo, e, nas visões, a experiência do inferno da relação homem/mulher, o real, a fazer-se negativa do sonho.
A justaposição “ia-voava”, em “sentimento meu ia-voava para ele”, extraída de Guimarães Rosa faz-se tradutora de um sentimento trigoso, pressuroso, impulso amoroso em apressamento que com essa, não com outra voz, deve ser dito. Em Ana Miranda, o “aviso da terra” traz o júbilo desenfreado da sede a ser saciada e que se expressa, aqui também, numa forma justaposta “águafrescáguafresca” transfigurando-se em canto, euforia: “acabada a água do armário do camarote e só chuva para tomar, atinava eu que ia beber água fresca, água fresca, água fresca, água fresca águafrescáguafresca lari lará, molhar as mãos, as ventas, derramar o que fosse, sem contar gota por gota, não ouvir mais gente bradar por água, molhar meus cabelos em um chafariz, bica ...”.
Surge, na voz de Oribela, uma língua viva, vida perceptível pela negação de sua unicidade. Não é uma língua social única, mas representante da contínua evolução histórica de uma língua viva. A voz de Oribela busca compreender, a partir desta língua, o desmundo em que se encontra.
Há momentos em que, para compreendê-lo, parecem faltar palavras. É necessário entender a vida, “uma rede de tristuras tenebrosas”.
Em Ana Miranda, as metáforas atuam na construção do discurso de Oribela e representam a linguagem poética de forma significativa. Há que se observar uma delas: “nem dobrou minha alma em joelhos”. Esta metáfora faz referência à expressão “em joelhos”, muitas vezes presente durante o romance, reveladora da concepção medieval de mundo (tantos joelhos viviam a dobrar-se), ainda no século XVI. Quanto à metáfora, não são os joelhos no sentido denotativo que se recusam a dobrar-se, mas os joelhos da alma, a alma que se quer livre, que não se dobra diante de tantas imposições e negações oferecidas pelo mundo novo à alma de quem fosse mulher. Que se quer mistério e não permite que o coração seja desvendado.
Nesta metáfora há, ainda, referência a dois aspectos relativos à mulher, que deveriam ser domesticados: a alma e o corpo (representado pela palavra joelho). Quanto a Oribela, os joelhos podem até dobrar-se, mas, quanto à alma ... É ter “numa parte o corpo e noutra o coração”.
Surgem metáforas que atestam a forma como Oribela compreende o real, mas, até mais que isto, a maneira como procura entender-se enquanto ser humano neste mundo que entra pela porta de seus olhos, a fazer que seus desejos sejam “torcidos com amarguras”.
Um outro recurso utilizado por Guimarães Rosa, as antíteses, também surge em Desmundo, para revelar o caráter contraditório mundo versus desmundo, ou seja, a esperança e a desesperança e as próprias dúvidas que atormentam a personagem: “boas mulheres versus putas e regateiras”, “poder alembrar e poder esquecer”, “luz e sombra”, “grande segredo é o morrer, maior segredo é o viver”, “sacramentada ao Ximeno versus a suspeitar que ele era o demo” e muitas outras antíteses que, muito mais que as matas, as grandes florestas fazem seu estro perder-se em labirintos sem fim. Quando me atenho com mais vagar a uma destas antíteses “boas mulheres x putas e regateiras”, torna-se inevitável um retorno ao intertexto com a história das mentalidades e aos protótipos de mulher forjados pela sociedade colonial: o da santa mãezinha e o da mulher sem qualidades.
Todas as antíteses observadas durante a leitura do romance, parecem culminar em questionamentos acerca de assuntos muito variados, como, por exemplo: Viver, que significa? Morrer? Quem realmente é o mouro? Vida, qual seu significado?
Outra característica da linguagem rosiana é a utilização da hipérbole propriamente dita, também aproveitada para a elaboração do romance Desmundo. Há um grande medo do castigo divino, e a hipérbole seguinte representa a enormidade do medo: “ia o pai mandar muitas setas de fogo, gemidos, chamas de enxofre que nunca acabam de queimar, tal que o ímpeto de um rio de lágrimas não poderia apagar um dia Deus alagaria o velho mundo com as águas do céu em que se afogaria todo o gênero humano como se matasse uma vaca brava e a terra ficaria deserta, restando os que tinham vindo ao novo país e quem aqui fosse o mais forte seria o rei do mundo”.
O que se refere a Deus, principalmente no que concerne ao castigo divino, é sempre visto de maneira hiperbólica pela personagem narradora. O hiperbólico se presentifica, também, no que concerne às imagens visionárias que povoam os delírios da personagem central: “era eu devedora de pagar com meu coração no que de mim abriram o peito, um corte fino de dor e as mãos dedudas e grosseiras do algoz se meteram no meu peito a arrancar o coração."
Outra construção bastante intrigante pertence ao fragmento localizado na parte dois do romance, intitulada “Terra”. As jovens órfãs aguardam seu destino no convento dos padres “esquecidas ali, guardadas, esperando esperandesperando...” A expressão , exatamente por divergir das construções usuais,  “esperando esperandesesperando” intensifica a ideia da espera, que é também desespero. A começar pelo uso do gerúndio, tempo verbal que dá ideia de uma ação contínua, a intensificação se faz, também, pela repetição da própria palavra “esperando” três vezes. A elipse do “o” final do segundo emprego da forma “esperando”, que se une ao outro “esperando”, conota a angústia da espera, monta-se em desespero. É preciso apressar o término da espera, para saber o que as aguarda neste mundo tão novo.
Somando-se às várias construções inusitadas, aparecem palavras pertencentes à língua indígena, na fala de Temericô; à língua espanhola, nas falas da Parva e em construções como “No he temor, piedoso es el Señor” e, ainda, à língua latina mesclada à fala/oração de Francisco de Albuquerque. Esta mescla de línguas diferentes colabora para a criação de uma linguagem que remete às diversidades de línguas presentes no século XVI em terras brasileiras: o plurilinguismo.

A República de Platão e o caos em Desmundo

O romance Desmundo, de Ana Miranda, pode ser considerado como um romance de formação. Narra a formação do país em seu momento mais incipiente. Narra, com isso, a formação de seu povo de forma alegórica, apresentando a diversidade e a mistura étnica e cultural que ocorre na colônia. O trabalho alegórico realizado no romance aproxima-se da proposta apresentada por Platão, em seu texto A República, quando pelos dizeres de Sócrates, em especial no livro segundo, quando esta personagem narra, alegoricamente, a construção de uma cidade perfeita.
Em Desmundo, o processo de construção da realidade no Brasil se dá de forma muito semelhante. Em uma cidade portuária é possível encontrar representantes de todas as partes do Império Português.

Gente natural da terra e do reino, num quieto rumor de quem se ajunta, muito atentos, fêmeas, machos, os da terra de cor vermelha, em camisas e sem barba segurando seus machados de ferro ou ferramentas da lavoura ou remos, de pestanas raspadas, cafres machos ou fêmeas, os machos armados de dar temor e os demais portugueses, barbados, bragas, camisas rotas, uns de botas, barretes, braguilhas sujas de tinta vermelha. Diziam que eram aquela gente tanoeiros, carvoeiros, caldeireiros, cavaqueiros, soldados, sangradres, pedreiros, ferreiros, calheiros, pescadores, lavradores, eiros, eiros, ores, ores, e tudo o mais necessário para se fazer do mato uma cidade. (Miranda, 25)

E, conforme a narração avança, vão aparecendo cada vez mais detalhados esses que compõem a cidade, bispo, padre, mulheres, homens, comerciantes, marinheiros, cristãos, judeus, mouros, escravos, muitos escravos. A partir desses exemplos de habitantes, alguns nomeados, outros não, a maioria presa a funções específicas que lhes atribuem um caráter de personagens-tipo, é que a ficção de Desmundo constrói um projeto de uma cidade típica brasileira da época do início da colonização. Não há necessidade de reconhecer a veracidade desta cidade, mas há, sim, a de perceber que a sua construção se dá sobre os discursos que tratam sobre o que seria essa população que veio para a colônia e aqui formou cidades e portos, produziu e guerreou.
Não eram somente para se defender é que as guerras no Brasil ocorriam. Elas eram tanto fruto das necessidades dos outros povos, como eram das portuguesas. Essas necessidades se refletiam em ataques contra os povos indígenas, para capturar escravos. Era guerra por necessidade (econômica, de força de trabalho), apresentando-a guerra como algo justo, pois os colonos haviam sido atacados primeiro e então, teriam o direito de contra-atacar.

Fartar, rapazes! Vingança! Vilanagem! Cercaram os cristãos a aldeia, com suas armas apontadas, postos em suas ordens e em suas capitanias, com muita soma de guiões e bandeiras, os selvagens dispararam flechas que tombavam uns dos animais e se fez uma tal grita que pensei estar na batalha do fim do mundo, por fora dos naturais andavam uma grande cópia de homens correndo de uma parte a outra com suas lanças nas mãos a meterem os naturais em cerco, mais uma fileira de gente, avançaram, entraram na aldeia, davam com as espadas nas cabeças dos velhos e das mulheres ou metiam uns disparos para todo lado, de modo que o terreiro deles se foi cobrindo de mortos, uns nus e vermelhos, outros de suas capas e cabelos negros e vermelho de sangue, de miolos e uns pedaços de gente, até o fim. (Miranda, 144)

O tratamento a que os indígenas são submetidos é até visto como algo penoso, mas que não tem como ser evitado.
A pobre Temericô enxergava tudo, parada na mata feito uma pedra, depois de algumas fritas se curvou sobre a barriga e gemeu feito cantasse, uma coisa estranha de se ver. Mandei assentar ao meu lado, o que ela fez. Não sabia que brasil sente dor. Os vaqueiros amarraram num fio os guerreiros brasilos, um atrás outro, escolhendo e metendo uma espada n peito dos que não tinham serventia, ou quebrando os miolos deles e veio o gentio assim puxado, um espetáculo tão piedoso que não havia bom homem ou mulher que não pasmasse de tristeza. Eram mil os cativados que iam agora servir de escravos. (Miranda, 144)

Essa incorporação da guerra de captura dentro da ficção histórica se dá em duas perspectivas: de um lado, o aparecimento do relato histórico, enquanto uma referência à imagem canônica, faz com que a história seja reafirmada, produzindo uma representação sobre o passado no presente.  Mais do que negar o passado, a ficção histórica contemporânea busca retrabalhar as imagens canônicas incorporadas no imaginário sobre o passado. Mas, ao mesmo tempo, ao reafirmar o passado que de certa forma se tona oficial, a ficção histórica contemporânea traz uma grande quantidade de anacronismos. Esses anacronismos são certas atualizações do discurso possíveis dentro de um discurso não compromissado com a verdade histórica, como é o caso do discurso ficcional. Ao apresentar a compaixão sobre o sofrimento do gentio, nas palavras de Oribela, a ficção histórica que toma corpo em Desmundo aponta para uma visão do futuro (contemporânea da época da produção do romance) sobre a escravidão.
Identidade nacional e miscigenação
Gilberto Freyre (2000), pesquisador da história brasileira, afirmou que os portugueses, quando chegaram ao Brasil encontraram as índias nuas que, pelo seu aspecto físico se assemelhava ao imaginário português sobre a mulher moura (muçulmana). Essa é uma das explicações que Freyre dá para a grande capacidade que os portugueses tiveram ao chegar nas terras de além mar.

Quanto à miscibilidade, nenhum povo colonizador, do modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se em posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora. A miscibilidade, mais do que a mobilidade, foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala e sobre áreas extensíssimas. Para tal processo preparara-os a íntima convivência, o intercurso social e sexual com raças de cor, invasora ou vizinhas da Península, uma delas, a fé maometana, em condições superiores, técnicas e de cultura intelectual e artística, à dos cristãos louros. O longo contato com os sarracenos deixara idealizada entre os portugueses a figura da moura-encantada, tipo delicioso de mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual – sempre encarnado, sempre penteando os cabelos ou banhando-se nos rios ou nas águas das fontes mal-assombradas – que os colonizadores vieram encontrar parecido, quase igual, entre as índias nuas e de cabelos soltos do Brasil. Que estas tinham também os olhos e os cabelos pretos, o corpo pardo pintado de vermelho, e, tanto quanto as nereidas mouriscas, eram doidas por um banho de rio onde se refrescasse sua ardente nudez e por um pente para pentear o cabelo. Além do que, eram gordas como as mouras. Apenas menos ariscas: por qualquer bugiganga ou caco de espelho estavam se entregando, de pernas abertas, aos “caraíbas” gulosos de mulher. (Gilberto Freyre, 2000, 84)

Oribela, em uma das cenas do livro, foge de casa, após um ataque que haviam sofrido, e esconde-se na residência de um mouro, Ximenos Dias, local em que passará alguns meses.  Mesmo que Ximeno não possuísse a característica física moura (a pele queimada, os olhos e cabelos escuros), ele é objeto de interesse para os olhos de uma mulher confusa e, mais do que portadora de valores religiosos católicos, ela traz consigo a visão de mundo construída por esses valores, em especial as imagens sobre outras culturas construídas por eles.
O mouro possui uma descrição que enfatiza a sua cor, em especial o cabelo avermelhado e a pele rosada. Ximeno incorpora em si toda a diversidade de visões sobre o que era o mouro: tipo de religião, conhecimento, erudição, sensualidade e a encarnação do demônio (p. 168, p. 179).
Esses diálogos que ocorrem com os textos sobre o passado histórico brasileiro também ocorrem com a história da literatura. Em uma subversão de uma imagem canônica da literatura brasileira sobre a formação do povo brasileiro, o romance Desmundo se apropria da forma de romance de formação, usada por José de Alencar, em Iracema. Neste, uma índia, belíssima, pari um filho de um português, também belo, e o lusitano, no intuito de dar melhores condições de educação e civilidade, leva o filho para a Europa, deixando a índia, Iracema, abandonada no Brasil. Ela acaba morrendo de tanto sofrer pela separação. Este romance, alegoricamente, narra o nascimento do primeiro brasileiro (no texto, o primeiro cearense), filho de português com índio, e educado cultamente na Europa.
Já em Desmundo, ela, Oribela, uma portuguesa órfã e de pouca beleza vem para o Brasil e aqui acaba por se casar com um colono português, Francisco de Albuquerque, que já havia incorporado grande parte dos costumes da terra, tornando- se praticamente um bruto, um selvagem (a sua falta de civilidade é reforçada também pelo seu aspecto grotesco, com barba grande e sujo). Ele, ao final da narrativa, ao desistir de conquistar pelo menos respeito por parte de Oribela, mulher que lhe havia traído e engravidado de outro homem (ainda por cima um mouro), ao nascer do filho ele toma o filho de sua mãe e parte com ele para Portugal, abandonando Oribela (imagem de uma Iracema traidora, impura) a praguejar contra o seu marido e contra à terra em que é condenada a viver.  Nada de belo é apresentado nessa imagem da subversão de Iracema. Bem pelo contrário: o que ocorre é a dessacralização do imaginário do Romantismo, apontando um diálogo com o passado, mas buscando livrar-se de suas imagens estereotipadas.

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