19 de set de 2012

A Carta do Achamento







A CARTA DO ACHAMENTO, Pero Vaz de Caminha

Estilo de época
            O primeiro período da história da literatura brasileira é chamado de Quinhentismo. Começou em 1500, ano em que Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, enviou a D. Manuel  I a famosa Carta, em que se comunicava ao soberano o “achamento” das terras brasileiras. Em 1601foi publicado o poema “Prosopopeia”, de Bento Teixeira, tradicionalmente considerado a obra inicial do Barroco literário brasileiro.
            A produção literária do Brasil do século XVI liga-se a duas necessidades práticas principais da empresa colonizadora portuguesa: a de fornecer informação sobre a nova terra e a de converter os indígenas ao cristianismo. Nessa literatura de valor principalmente documental, encontramos elementos importantes para a compreensão de nossas origens históricas e literárias.
            Essa produção literária proveio principalmente dos esforços iniciais de conquista das novas terras. Dessa forma, houve várias manifestações em prosa, em sua maioria tratados, cartas e diários, cuja principal finalidade era descrever a paisagem e a vida brasileiras, atuando como fonte de informação aos europeus. Além disso, o teatro conheceu algum desenvolvimento sob forma de autos versificados compostos pelos jesuítas em seu trabalho de catequização do índio. Também ocorreram algumas manifestações poéticas, principalmente de caráter religioso, ligados ao esforço catequético.

A apresentação da Carta
            A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, D. Manuel I, foi escrita na ocasião da descoberta do Brasil. O autor fazia parte da frota comandada por Pedro Álvares Cabral que aportou no litoral brasileiro no ano de 1500. É a primeira representação literária da realidade brasileira. Fixa a nossa origem, inaugura a visão do que somos, iniciando a formação da identidade do país e da nossa formação cultural.
            O conteúdo da Carta de Caminha dialoga com a História, sendo considerada, por isso, um documento histórico. O autor se revela o primeiro cronista do Brasil. A carta realiza uma espécie de relatório para o rei sobre a descoberta da nova terra e o autor se posiciona como testemunha ocular dos fatos. Registra os primeiros momentos do encontro do português com a região, descreve a geografia física e humana do Novo Mundo e revela o impacto cultural dos estrangeiros com os Ameríndios.
            A carta classifica-se como gênero epistolar por possuir, em sua estrutura formal, remetente, destinatário e mensagem. Mas como sua mensagem foi redigida durante vários dias e o seu conteúdo foi dividido a partir dos principais acontecimentos de cada um deles, ela também classifica-se como um Dário. O texto de Caminha pode ser denominado como carta-diário ou um diário atípico.


 

Contexto Histórico
            No séc. XV, Portugal deu início à expansão marítima com o objetivo de conquistar e colonizar outras partes do mundo. Essa atitude atendia a necessidade de Portugal de resolver carências e conflitos internos gerados pela crise do século XIV (fomes, pestes e guerras), que ocasionou a desintegração do Sistema Feudal. Assim, as Grandes Navegações atendiam a necessidade da sociedade portuguesa, organizada em um Estado Nacional, em se adequar às transformações sociais (ascensão da classe burguesa) e, sobretudo, econômicas (afirmação do Mercantilismo como sistema) vivenciadas pela Europa Ocidental, no início da Era Moderna.
            Em relação aos interesses mercantilistas, a Coroa Portuguesa desejava, ao mesmo tempo, angariar regiões para a exploração de metais preciosos e para a expansão do comércio. O primeiro alvo das expansões ultramarinas foi a África, mas a vontade maior de Portugal era encontrar a rota marítima que o conduziria às Índias. Nessa época, as Índias eram consideradas o berço dos artigos de luxo e das especiarias, produtos ambicionados pelos europeus. Esses produtos chegavam à Península Ibérica por meio de intermediários árabes, judeus ou através do próspero comércio italiano. O projeto de singrar os mares “nunca dantes navegados”, contornar a África e conquistar o Oceano Índico livraria os portugueses desses intermediários. Através de acordos, pressões e, mesmo, utilizando-se da força, os responsáveis pelas expedições ultramarinas tentariam o monopólio do comércio em algumas cidades indianas, especialmente Calicute. Mas não eram apenas as transações mercantis que interessavam a Portugal no seu projeto expansionista. Ele também visava os interesses da classe feudal e da Igreja. O Estado também almejava resolver os problemas de escassez de cereais, alargar a lavoura açucareira e, não poderíamos nos esquecer, dilatar a fé católica. Inclusive, a campanha religiosa será largamente usada para justificar as colonizações portuguesas.
            Durante quase um século, várias expedições foram enviadas pela Coroa e o mar foi gradativamente se alargando para o europeu. Em 1498, a expedição comandada por Vasco da Gama finalmente consegue o caminho para as Índias, fato que será celebrado na famosa epopéia Os Lusíadas, escrita por Luís de Camões. Dois anos depois, uma nova armada parte de Lisboa em uma dupla missão: a primeira de ordem religiosa, apoiada por Roma, objetivava catequizar os povos das Índias. A segunda, de natureza financeira, tinha compromissos com a burguesia (os patrocinadores financeiros e comerciantes), de estabelecer o monopólio comercial com os governantes de Calicute, criando uma feitoria nessa cidade.
O autor: Pero Vaz de Caminha
            Pero Vaz de Caminha foi escolhido pelo rei D. Manuel para desempenhar a função de escrivão na feitoria de Calicute, na qual exercia o cargo de contador. Era, portanto, súdito e servidor direto do rei. Além de descrever sobre os acontecimentos importantes da viagem, sua profissão exigia que tivesse um olhar avaliativo sobre as atuações financeiras da expedição.
            Nesse sentido, com a descoberta do Brasil – chamada na ocasião de Ilha de Vera Cruz – Pero Vaz se viu na obrigação de compartilhar com o rei sobre a nova terra conquistada por Portugal. Revelando-se um exímio observador, com singelo olhar realista, envia a D. Manuel informações precisas sobre o valor da terra, procurando analisar suas águas, o clima e ares, a possibilidade de existência de ouro e prata, a natureza dos nativos.
            Caminha, como um bom representante das Grandes Navegações, apresenta-se imbuído da ideologia mercantilista e do cristianismo. Inclusive faz recomendações sobre o maior e melhor aproveitamento da terra e dos homens.
A abertura da carta
            A abertura da Carta apresenta duas ideias que nortearão todo o discurso de Pero Vaz de Caminha. A primeira delas encontra-se no trecho em que o escrivão, ao anunciar a notícia da descoberta do Brasil como motivo da sua escrita ao rei, refere-se a “Nova Terra” como uma propriedade de Portugal. Assim, é possível compreender que a chegada da frota de Pedro Álvares Cabral ao território brasileiro assinala o início da dominação lusitana sobre essa região e o relato de Caminha, dentro desta perspectiva, orienta-se no sentido de avaliar o que a terra oferece ou não como riquezas à Coroa.
            A segunda ideia revela o autor da carta como testemunha ocular dos fatos. Pero Vaz de Caminha participa do episódio e sua escrita ganha a dimensão de um documento histórico. Dessa maneira, seu relato possui certa objetividade, onde descreverá, com inúmeros detalhes, a exuberância da natureza, o fenômeno e modos de vida dos indígenas, o encontro entre as culturas, as riquezas da terra. Entretanto, Caminha ao mesmo tempo em que manifesta o desejo de escrever uma exposição mais objetiva, evitando distorcer os episódios, ele não deixará de colocar as suas impressões, ou seja, de projetar sua subjetividade. Assim, o olhar do cronista não é neutro. Os valores pessoais de Pero Vaz misturado aos interesses maiores do projeto das grandes navegações, de quem ele é porta-voz, interferirão na maneira de interpretar os episódios do encontro com o Brasil.
            Portanto, o escritor, em sua carta, presta contas ao rei sobre os possíveis benefícios de sua nova propriedade. Para isso, realiza uma espécie de relatório, onde observará várias características daquele mundo. Mas Caminha não se furtará em interpretá-las. Molda os dados da realidade a partir da visão de mundo européia e do impacto que o novo mundo causará ao português.
Roteiro de viagem
            Apesar de declarar-se incapaz por não ter conhecimentos técnicos necessários, Pero Vaz faz um resumo do percurso marítimo realizado pela frota: a saída de Belém, Portugal, no dia nove de março, a passagem pelas Ilhas Canárias, no dia 14 de março; e pelas Ilhas do Cabo Verde, no dia 22; e afinal, o encontro com uma desconhecida região do lado ocidental. Antes, porém, de Cabral vislumbrar o Brasil, o escrivão relata o esforço do comandante-mor em encontrar a nau comandada por Vasco de Ataíde, que estranhamente desapareceu. Apesar de o tempo estar tranqüilo e não haver ventos contrários, não foi possível encontrar a embarcação.

O achamento
            No dia 21 de abril, oito dias após o primeiro domingo de Páscoa, os marinheiros dos navios reconheceram algumas plantas típicas do litoral: botelhos e rabo-de-asno. Esse dia é considerado o marco do descobrimento do Brasil, mas pela carta de Caminha, na data só foram encontrados alguns sinais de terra.
            No dia 22, pela manhã, algumas aves foram avistadas e, no período da tarde, a terra finalmente é encontrada. Primeiramente, um grande monte denominado Montes Pascoal e, em seguida, a planície chamada de Ilha de Vera Cruz.
Dia 23 de Abril
            Nesse dia, os portugueses avizinharam-se um pouco mais da terra e ancoraram. Viram, então, cerca de vinte homens andando pela praia. Nicolau Coelho, por ordem do capitão-mor, desce de batel para pesquisar sobre o rio. Alguns nativos, com arco e setas na mão, caminham em direção ao barco. O capitão pede para abaixarem as armas, no que é prontamente obedecido.
            Estabelece-se uma troca de presentes. Nicolau Coelho entrega seu chapéu, gorro e barrete, em troca, recebe sobreiros de penas de aves e um colar.
            Pero Vaz faz a primeira descrição dos homens do lugar. Seu comentário nos colocaria diretamente com a sua tentativa de definir-lhes a raça e o grau de civilidade. Nesse último caso, os nativos se mostram bastantes primitivos por estarem nus. Se pensarmos que a palavra “vergonha”, significando a parte sexual, possui sentido moral – vergonha deve ficar encoberta – poderíamos presumir um olhar moralista sobre os nativos. Mas não é isso o que acontece. A nudez dos nativos não será indício de libertinagem ou promiscuidade.      O europeu, nesse primeiro contato, avaliará como uma nova prova de inocência, de ausência de uma consciência civilizada. Aqui é possível falar sobre o caráter adâmico, pois o índio é apresentado em um estado tal de pureza que se assemelha a Adão, primeiro homem criado e habitante do paraíso, o Éden, criado por Deus. Os habitantes da nova terra não haviam sido corrompidos pela civilização, eram naturalmente bons, vivendo no seio de uma natureza sã e acolhedora. Estavam então isentos do pecado e aguardavam apenas que até eles fosse levada a Palavra de Deus para se tornarem bons cristãos, conforme a visão católica.
Dia 24 de Abril
            Nesse dia, os portugueses desenvolvem uma pesquisa maior sobre o lugar. Depois de velejarem à procura de um lugar mais tranquilo e ancorarem, Pedro Álvares Cabral envia o piloto Afonso Lopes averiguar as condições do lugar. Este captura dois nativos e leva-os para serem interrogados. Nessa ocasião, Caminha descreve o corte e o arranjo dos cabelos desses selvagens, ressaltando a limpeza e o trato cuidadoso com a aparência. De certa maneira, existe nesse ponto um traço de superioridade dos nativos em relação aos portugueses, que ficará nítida no trecho em que o escrivão compara as moças daquele lugar às portuguesas.
            Os dois homens “mancebos e de bons corpos” são recebidos por Pedro Álvares Cabral. Eles não fazem menção de cumprimentar o capitão, o que revela mais um choque cultural de não reconhecimento da cortesia almejada e da hierarquia social vigente entre os portugueses.
            Os índios fazem gestos que fazem com que os portugueses entendam que há ouro e prata nas terras brasileiras. A linguagem gestual é interpretada conforme os interesses mercantilistas europeus, deixando escapar outras possibilidades de sentido. O próprio Caminha, um pouco depois, relativiza a interpretação dada:

Viu um deles umas contas de rosário, brancas, acenou que lhas dessem e folgou muito com elas e lançou-as no pescoço e depois tirou--as e embrulhou-as no braço; e acenava para a terra e então para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo. Isto tornávamos nós assim por o desejarmos; mas, se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque lhos não havíamos de dar.
           
            O interrogatório continuará sempre de maneira amigável. Os portugueses mostram-lhes alguns animais, com o intuito de verificar quais são pertencentes àquele mundo. A ausência de criação de galinhas, por exemplo, será interpretado como indício de primitivismo, de desenvolvimento de meios materiais subsistência. Mais adiante, veremos que o contato entre viajantes e nativos ficará mais familiar: serão menos resistentes, inclusive, à comida dada pelos portugueses.
Dia 25 de Abril
            Nicolau Coelho e Pero Vaz de Caminha dirigem-se à praia para devolverem os dois índios. Junto a eles é enviado um degredado, Afonso Ribeiro. Os degradados, condenados à morte por seus crimes em Portugal, embarcavam nestas expedições justamente para realizarem as piores missões durante as viagens, geralmente aquelas que demandavam riscos de vida.
            Alguns nativos continuaram perto dos barcos e trocavam cabaços de água por presentinhos ou ajudavam os portugueses a reabastecerem de água enchendo seus barris. Um início claro da exploração da mão de obra indígena. Pero Vaz, mas próximo dos ameríndios, observa e sublinha a diversidade de seus adereços e também a pintura de seus corpos. Observa também algumas moça que andavam pela praia. Destaca-lhes a nudez, sobretudo, o asseio da parte sexual. Numa outra passagem, Caminha faz nova referência às índias, comparando-as às portuguesas:

“E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela...”.
 Novamente o aspecto sadio e o asseio dos corpos são elogiados por Caminha. 
Dia 26 de Abril
            A primeira missa acontece em Ilhéus, sem a presença dos nativos e é celebrada pelo padre Frei Henrique Soares de Coimbra. Enquanto a missa transcorre, os nativos dançavam, saltavam e tocavam alguns instrumentos a fim de chamarem a atenção dos estrangeiros. Nessa parte da narrativa, vê-se a decisão de enviar a Portugal a notícia do “achamento” das novas terras. O autor expõe claramente que o tratamento cordial dado aos índios estava de acordo com um plano bem definido pelos conquistadores. Esse projeto determinava que era preferível evitar um conflito com os nativos para facilitar a pesquisa sobre o local e posteriormente a dominação do seu povo. Ainda nesse dia é possível perceber a tentativa dos viajantes de terem maior contato com a terra e seus habitantes. Eles trocam presentes. Os nativos oferecem arco e flecha por qualquer coisa dada pelos estrangeiros, o que revela certa infantilidade dos índios. Um dos viajantes, Diogo Dias, chega a dançar com os indígenas.
            Caminha relata ao Rei o modo instável dos nativos brasileiros: ora “amansavam-se” ora afastavam-se. Pero Vaz conclui que eles são selvagens, primitivos, que vivem livres como animais:
Porém e com tudo isso andam muito curados e muito. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser. Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos nenhuma casa ou maneira delas.

É importante destacar aqui a condição edênica da nova terra e do homem nativo como um ser adâmico. Sobre esse trecho, o crítico Luis Roncari observa:

“A impressão é a de que a harmonia homem-mundo ainda não tinha sido quebrada, os diferentes seres e elementos da natureza estão mais próximos e por isso se alimentam e se lembram mutuamente.”

Caminha conclui que eles vivem ao ar livre, sem nenhum tipo de moradia. Conclusão equivocada, pois os viajantes acompanham os indígenas à aldeia.
            Ali na aldeia, apesar dos diferentes costumes apresentados pelos indígenas, Caminha intui uma mínima organização. Entretanto, o olhar do europeu se inclinará cada vez mais para ver esse novo mundo como uma espécie de paraíso terrestre, um lugar não alcançado pela civilização.

Dia 28 de Abril

            Uma cruz começa a ser construída nesse dia. Os nativos acompanham o trabalho dos carpinteiros. Não estão interessados pela cruz, pois desconhecem sua simbologia, mas sim pelas ferramentas de ferro que os portugueses traziam, principalmente porque seus instrumentos de corte eram simples, feitos de pedra. Caminha aprecia a quantidade e variedade de pássaros existentes na ilha. Os portugueses ficam deslumbrados com as espécies brasileiras.

Dia 30 de Abril
            Na manhã desse dia, os dois hóspedes abrigados pelos portugueses no dia 29, comeram de tudo oferecido sem nenhuma desconfiança, uma atitude diferente dos dois nativos do dia 24. Um deles recebeu de presente uma presa de javali e a ajeitou no furo da boca. Seu contentamento foi tal que Caminha observa que para ele o adereço foi tomado como algo de grande valor. Os viajantes não conseguiram constatar a presença de metais preciosos na região, mas é certo que esses nativos não saberiam informá-los, uma vez que, seus valores eram completamente diferentes dos europeus.
            O discurso de Pero Vaz toma rumo neste final de relato. Se o primeiro objetivo das grandes navegações eram os interesses mercantilistas, e eles não foram alcançados nesta rápida pesquisa da região, o alvo agora passa a ser o segundo objetivo das viagens ultramarinas: a expansão do catolicismo.
            Caminha conta ao rei que o capitão Pedro Álvares Cabral impeliu seus companheiros a beijarem a cruz para mostrarem aos homens da terra a forte devoção que tinham por ela. Os nativos, por sua vez, imitaram os gestos dos portugueses. Diante desse fato, Pero Vaz observa:

Parece-me que é gente de tal inocência que, se entendessem logo a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm nem entendem nenhuma crença.

            De acordo com o fragmento, o único obstáculo para a conversão dos índios seria a diferença de linguagem entre os dois povos, que prejudicava em grande medida a comunicação, mas era um problema facilmente superável. O autor sugere que o rei deveria mandar pessoas disponíveis para permanecerem no lugar e realizarem um trabalho efetivo de catequese.
            Pero Vaz sempre ressalta a imagem dos nativos como uma mistura de selvageria e bondade, ou melhor, o bom selvagem. Porém, as qualidades apontadas pelo escrivão – primitividade, bondade, ingenuidade – são positivas para os portugueses, pois facilitariam a dominação sobre eles.
            Em outras palavras, não podemos dizer que não existia um sentimento humanista do português em querer catequizar os índios. Na perspectiva do europeu, aquele povo era vazio de espiritualidade – os índios agiam como crianças que precisavam de uma formação religiosa, mas ao mesmo tempo, mostraram-se abertos aos valores dos viajantes. Assim, a catequese era um meio para a continuação do domínio.

1º de Maio
            O tema da conversão domina as considerações finais do discurso de Caminha. Nesse dia, acontece uma segunda missa, mas agora com a participação dos nativos. Mais uma vez há uma da facilidade da expansão do catolicismo naquele meio.
Finalmente, cumprindo sua função de avaliar a terra. Primeiramente dá uma noção da extensão territorial:

Esta terra, senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é toda praia parma, muito chã e muito formosa.

Caminha chega à conclusão que não foi possível saber sobre a presença de metais preciosos, mas, por outro lado, a terra oferecia muito em temos de riquezas naturais:

Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro;
Nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

Em sua despedida, Pero Vaz de Caminha faz um pedido pessoal ao rei de D. Manuel. Solicita a volta de seu genro que se encontrava degredado em São Tomé, condenado por seus crimes. Caminha inaugura não apenas a nossa tradição escrita, mas, infelizmente, deixa marcas de uma prática cultural extremamente difundida em nossa sociedade: a troca de favores.

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