25 de abr de 2012

Alice no País das Maravilhas

BATE-PAPO PÓS-LEITURA
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
Em todos os tempos, sempre surge uma voz que vai contra as convenções sociais. Essa voz pode não falar explicitamente, mas ela está lá, ela existe. Eis o caso de Lewis Carroll e de seu livro Alice no País das Maravilhas.
Podemos realizar uma leitura ingênua da obra de Lewis Carroll, atentando apenas para o enredo, personagens...  Ou uma análise crítica, que vê na fuga de Alice para o mundo mágico uma forma de censurar a sociedade opressora na qual vivemos.
Vamos à segunda hipótese.
Uma menina enfadada dá inicio a história de absurdos aparentes.  Assim, temos uma série de fatos que serão desencadeados por causa da garota Alice que, sentada juntamente com sua irmã, começava a cansar-se por não ter nada (de interessante) para fazer.
Se considerarmos Alice como um indivíduo pertencente à sociedade comum, o seu estado de tédio, cansaço, aborrecimento, pode ser entendido como sendo causado pelo contexto social. Esse mesmo tédio é quebrado pelo elemento mágico, introduzido pelo Coelho Branco, que desperta em Alice a curiosidade e a vontade de ir atrás do novo, do diferente, da aventura, isto é, ela sai da apatia, para o movimento, para a mudança.
Ao ir atrás do Coelho Branco, a menina entra na toca sem pensar como sairia dali ou quais seriam as consequências de seus atos. Nessa atitude da menina temos uma transgressão em relação ao que se espera do comportamento infantil: a obediência e a conformidade.
Na Inglaterra Vitoriana da época (século XIX), as crianças eram educadas para que se comportassem como “miniadultos”. A sociedade acreditava que, para se desenvolverem as virtudes no comportamento infantil, era necessário que as crianças tivessem a plena consciência de que há a culpa e a aprovação. Assim, o universo dos pequeninos era povoado por esses dois conceitos que, ao final, eram regidos por um único: o medo da punição.
A personagem Alice, porém, foge a esse padrão amedrontado. Ela se aventura, vai em busca da diversão, do diferente, do prazer que a experiência poderia trazer, sem pensar nas punições. Até aqui, você, leitor atento, já percebeu que a história realça, entre outras coisas, o valor de ser livre, de viver sem censuras bobas, o inconformismo com o que não nos faz feliz. Exemplo disso é que quando o mundo mágico deixa de ser divertido, no capítulo final, no momento em que Alice está em um tribunal sem regras e enfrenta a Rainha de Copas, ela acorda: o seu percurso de diversão acaba no momento em que a aventura termina. Ela desperta de seu sonho, voltando para a realidade.
Agora que terminamos nossa leitura, vemos que Alice não é uma obra escrita com o propósito de moralizar e manipular o leitor, levando-o a acreditar que determinado padrão é sempre correto e aceitável, ou ainda que a “lógica” é o certo e a falta dela é errado. Não! O contexto é que faz o sentido. E a falta, aparente, dele pode ser o mais apropriado em certas situações. Lembram-se do NONSENSE? Prova do dito é que há uma série de inversões e subversões na história, justamente para que pensemos em como as situações, a vida e os poderes que a regem são relativos e podem (e devem) ser questionados quando parecerem simples imposições que não trarão melhorias para ninguém.  
Vale lembrar que um dos questionamentos mais significativos do livro se refere à figura da Rainha. O contexto ajuda a explicar: na época em que Lewis Carroll publicou o seu livro Alice no país das maravilhas, estava no trono a Rainha Vitória, importante figura, tanto social quanto economicamente, para a Inglaterra do século XIX. Mas essa rainha, embora fosse uma importante figura para a sociedade inglesa, tinha o poder político limitado. A Rainha de Copas, invenção do autor, dentro do sistema maluco que é o País das Maravilhas, quase não tem poder de decisão, assim como a Rainha Vitória dentro da monarquia do período. Os seres mágicos a temem, é verdade, mas as suas ordens de decapitação nunca são cumpridas, como o personagem Grifo diz para Alice: “– Ora, ela é que é engraçada – disse o Grifo. – Você sabe, isso tudo é fantasia dela: nunca executam ninguém.” Ela é caracterizada irritadiça e autoritária, que vê nas decapitações a solução para todos os problemas: “A Rainha só tinha um meio de remover todas as dificuldades. – Cortem-lhe a cabeça! – gritou, sem voltar-se sequer na direção apontada”. Alice enfrenta a autoridade da Rainha do País das Maravilhas, abertamente, pelo menos duas vezes: quando ela encontra a Rainha pela primeira vez e no tribunal.
Enfrentar a Rainha é uma maneira de se opor ao sistema, uma vez que ela é a representante dele, ou seja, esse ato é a concretização da busca da libertação de uma rigidez, que diz o que deve ser feito. Alice, uma criança, enfrenta a Rainha e põe “em xeque” o seu poder e o seu julgamento.
Em uma obra que pode ser lida como a representação da fuga da realidade para um mundo de fantasia livre das regras sociais, um mundo que critica a realidade, enfrentar o poder real e não ser punido é o ápice da libertação da rigidez e da opressão. E Alice é a representante de tal desejo, concretizando-o no mundo da fantasia, livre da punição que esse desrespeito com a autoridade da rainha traria.
Percebeu? Ler um livro literário é um convite a descobrir sentidos: alguns estão facilmente postos na superfície das linhas do texto, outros (os mais interessantes!) aguardam um leitor atento, crítico e sensível, disposto a dialogar, questionar e tornar a obra uma nova produção, porque o poder questionador faz o texto, por fim, ser também de quem o lê.
Ler é mesmo um ato transformador!

Eis, a seguir, alguns vídeos sobre Alice no País das Maravilhas! 

Beijos para você, queridos alunos!
Aqui, uma trecho de uma peça teatral bem inusitada! Super legal!



Neste, uma leitura da obra feita somente com imagens: uma forma também interessante de se (re)contar histórias.


O próximo vídeo é o clipe do filme Alice, aquela versão mais moderninha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Flickr