17 de dez de 2009

Voltar sem bagagem: outro tipo de leveza

Fim de ano, momento de repensarmos a vida, de olharmos com nostalgia o estranho relógio do tempo que, impaciente, insiste em correr.
Tenho em mim, e quem me conhece bem sabe disso, a virtude (em meio à multidão dos meus desacertos) de querer amar e construir vínculos com quem se aproxima, ou a quem me achego. Hoje, li um texto lindo e me emocionei bastante: é da Marta Medeiros e fala sobre valorizarmos as pessoas em detrimento daquilo que é material, passageiro. Penso que é urgente revisitarmos nossas prioridades, neste tempo onde estamos cada vez mais sós, ainda que acompanhados de pessoas e fartos (ou não!) de coisas.

  
No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
.........._ Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
.........._Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.
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..........Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa. Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.
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..........No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.
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..........Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida. Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.
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..........Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.

Um comentário:

  1. Dani, adorei.Acredito também que em meio a tanto tumulto, tanta correria, tanto cansaço, estamos perdendo o que mais importa nesta vida:o olhar nas pequenas coisas, o amor fraterno, a troca, o aperto de mãos, a amizade. Ainda bem que temos as palavras e o poder de fazermos delas, instrumento de nossa opinião.
    Fique com Deus.Obrigada por compartilhar comigo bons momentos profissionais e deixar fortalecer nossa amizade.
    Grande Abraço,

    Andréia

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